Falta de professores
O contínuo resultado do desinvestimento na educação
Paula Rodrigues | Dirigente SPGL
O problema da falta de professores não se resolve com o desumano e ilógico prolongamento da idade da reforma, nem com a despersonalização, nem com a sobrecarga progressiva de trabalho. Resolve-se com uma carreira mais atrativa e valorizada, com salários justos, horários regulados e condições de trabalho dignas.
A falta de docentes em Portugal tornou‑se um problema estrutural, previsto há mais de uma década e que se tem agravado de ano para ano, decorrente da ausência de estratégia e do desinvestimento na educação. Este défice resulta do natural processo da aposentação, do abandono da carreira por parte dos docentes que rejeitam a instabilidade profissional, familiar e económica, os horários desregulados e a falta de condições de trabalho e da incapacidade dos governos em atrair e manter novos profissionais, pelos mesmos motivos.
As tentativas de resolução do problema encetadas pelo MECI têm-se revelado superficiais e praticamente improcedentes. Faltam novos professores, com formação científica e pedagógica para o exercício de funções. Falta tempo para apoiar e integrar os mais novos. Faltam professores de apoio e de Educação Especial.
Em cada ciclo de ensino, o impacto da falta de docentes é uma constante, que vai assumindo diferentes e gravosas dinâmicas. Nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e secundário, quando os horários não são preenchidos em concurso, são frequentemente divididos pelos docentes do agrupamento, como horas extraordinárias, mesmo contra a sua vontade. Esta medida resolve o problema a curto prazo, mas vai cavando o fosso e criando condições para o abandono e para o burnout dos docentes. Com efeito, o inquérito da FENPROF sobre horários e condições de trabalho dos professores destes ciclos, publicado em 2023, revela que estes docentes trabalham regularmente mais de 50 horas por semana, muito acima das 35 horas semanais previstas na lei, sem que essa sobrecarga seja visível, remunerada ou regulamentada eficazmente. Este excesso de trabalho decorre não só de horas letivas, mas também de todas as tarefas de cariz pedagógico e outras mais burocráticas. Ora, se o tempo real de trabalho corresponde a 50 horas por semana, sempre que um docente for obrigado a aceitar mais horas letivas, está a assumir, por inerência, uma ou mais turmas, níveis ou anos de escolaridade; está a assumir mais conselhos de turma, mais testes e trabalhos para corrigir; mais alunos com necessidades educativas específicas ou falantes de outras línguas, alunos que necessitam de um olhar e intervenção atentos. Esta estratégia revela-se humana e pedagogicamente errada, pois não só contribui para um desgaste mais rápido dos docentes, como os impede de dar a atenção necessária a cada aluno e de se envolver em projetos significantes.
O problema da falta de professores não se resolve com o desumano e ilógico prolongamento da idade da reforma, nem com a despersonalização, nem com a sobrecarga progressiva de trabalho. Resolve-se com uma carreira mais atrativa e valorizada, com salários justos, horários regulados e condições de trabalho dignas. Os professores precisam de tempo para pensar, investigar, inovar, criar e partilhar.
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 313 | janeiro/fevereiro 2026