Leituras
Gaza está em toda a parte
Alexandra Lucas Coelho | Caminho
Lígia Calapez
“Quem vai justificar isto para as novas gerações pelo mundo? Quem lhes explica porque é que a Europa não trava esta matança?”. Esta a pergunta sempre presente no livro de Alexandra Lucas Coelho e que reúne reportagens, crónicas, alguns textos nunca publicados e 148 fotografias a cores, quase todas inéditas. Entre uma última ida a Gaza, antes de 7 de outubro de 2023, e março de 2025.
Um trabalho perpassado por uma profunda emoção. Marca de quem conhece – de forma direta e vivida - a realidade palestiniana, as pessoas, os lugares, os factos. Com uma certeza: “Em todo o território do Jordão ao Mediterrâneo não haverá liberdade, nem para israelitas nem para palestinianos, sem justiça”.
Os relatórios e testemunhos das mais diversas organizações e observadores internacionais – que a autora cita - confluem numa denúncia arrasadora. E alinham sucessivos “recordes”: de crianças mortas, de médicos e trabalhadores humanitários mortos, de detidos arbitrariamente; quase 100% da população deslocada; destruição da grande maioria das casas, escolas, hospitais, mesquitas, património; fome e epidemias em massa; ausência de eletricidade e água; muitas dezenas de milhares de mortos, milhares de desaparecidos, centenas de valas comuns.
Há também uma nota de esperança. A resistência palestiniana, a afirmação da vida, como na noite do anúncio de um cessar-fogo precário e incumprido. Uma lição para todos nós, “pela alegria que é a pausa da morte. Pelo que é agarrarem-se à vida, mais uma vez, com o que ainda têm e são”.
A solidariedade internacional. Solidariedade que se expressa na rua. “O fosso entre rua e líderes é cada vez maior, no Ocidente/Norte como no mundo árabe”.
Ou as limitadas e difíceis formas de protesto em Israel. “Nunca foi tão difícil ser objetor. Do Norte do país ao Vale do Jordão, ativistas, rabinos e organizações que protegem palestinianos são uma minoria cada vez mais atacada”.
Sempre presente, o apelo a que não se ignore o genocídio, o crime que se concretiza em cada dia. Na noite de 17 para 18 de março de 2025, Israel bombardeou Gaza, acabando com o cessar-fogo. Nesse mesmo mês, dia 24, Israel assassinou mais dois jornalistas. Um deles, o jovem repórter Hossam, deixara uma mensagem: “Não deixem o mundo olhar para o lado. Continuem a lutar, continuem a contar as nossas histórias – até a Palestina ser livre”.
Texto original publicado no Escola/Informação Digital n.º 48 | maio/junho/julho 2026