Orquestra Geração
Professores e alunos - uma paixão partilhada
Lígia Calapez
Dia 8 de julho, a Escola Miguel Torga, na Amadora, vibrava de vida. Em diversos espaços ouviam-se as sonoridades dos ensaios musicais, vozes de professores sublinhando a necessidade de “sentir a música”, de insistir até atingir “o máximo de perfeição”. Era um dos dias dos estágios da Pré-Infantil e Infantil da Orquestra Geração.
Em conversa paralela com professores e alunos, de que aqui damos nota, o que ressalta é a paixão partilhada, o empenho num projeto que exige muito de todos, o “sentir-se em casa”.
Vozes diversificadas que confluem em conclusões similares
“Nem nós, há 17 anos atrás, pensávamos que se pudesse ter este contacto e esta emoção com as crianças” e há alunos de então que hoje estão aqui “já como nossos colegas”, começou por referir o professor António Barbosa, que trabalha na Orquestra desde o início, na Amadora. Ao longo destes anos houve “uma grande evolução na Orquestra”.
É muito gratificante, frisa, porque “estes jovens podem ter uma perspetiva, não só na música, mas uma perspetiva de vida”, aplicar as regras por que se rege a própria Orquestra, “na sociedade, no mercado de trabalho”.
Um aprendizado que inclui o tocar e ouvir os mais diversos tipos de música, de ritmos, de melodias. E perceberem “que há um elo de ligação entre tudo, que é uma linguagem universal”. Com um foco “na responsabilidade para com o próximo”.
Os resultados das metodologias utilizadas refletem-se, nomeadamente, “no desenvolvimento que eles têm a nível social, a nível do grupo”. “E eu acho que a música, na perspetiva da Orquestra Geração, é mesmo isso - considera António Barbosa. Não é formar músicos que nem todos vão ser músicos profissionais e nem todos vão seguir música, mas todos levarem daqui uma aprendizagem”. O mais importante na Orquestra Geração, salienta, “é eles perceberem o estar em grupo e o respeitarem-se, independentemente da origem de cada um, perceberem que todos estão a trabalhar para o mesmo”.
Margarida Abrantes aluna da Orquestra durante 18 anos, é professora do projeto há cerca de 5. Na Orquestra “sente-se em casa”. Tudo o que aprendeu com os professores “eu tento passar também aos meus alunos”. Nesta passagem de testemunho, tem a vantagem de ter experiência como aluna. “Eu cresci aqui, eu aprendi estas músicas do zero também com as minhas dificuldades e isso ajuda-me muito a transmitir aos meus alunos o que é preciso”.
Este “passar para o outro lado”, que Margarida Abrantes já começara a vivenciar também como monitora, permite uma outra perspetiva sobre o que é ser professor. Margarida Abrantes foi aluna dos professores António Barbosa e Bruno Santos. E lembra: “por vezes refilavam connosco”. E agora “percebemos que somos amigos”, e que como professores ou monitores “não é fácil” e que “estamos lá para ajudar os alunos, para garantir a segurança deles e o bem-estar deles”.
Partindo, naturalmente, de uma experiência diferente, o professor Bruno Santos corrobora a perspetiva da Margarida Abrantes e valoriza a mensagem que se deixa na vida das crianças e adolescentes, as mudanças que se consegue imprimir nas suas vidas.
“Ensina-se a viver, a dar sentido”. Pela vivência de um ambiente de cumplicidade e cooperação, em contraponto a uma sociedade muito individualista. Também, naturalmente, estabelecendo regras. “Às vezes os alunos precisam de regras e ao sentirem que eu, por exemplo, chego ao pé deles e trato-os pelo nome e imponho regras, percebem que alguém se preocupa com eles”.
E acrescenta-lhe ainda uma outra dimensão. “Eu tenho três filhos e os três passaram pela Orquestra Geração. Podiam ter seguido música noutras instituições de música, mas acho que a aprendizagem que eles levam daqui é perceberem que há mais realidades sem ser a que o grupo dos pais lhe proporciona”.
A forma como assim se aprende, “de estar e de trabalhar e de interagir com os outros, também se reflete a outros níveis, mesmo entre os encarregados de educação”. Reflete-se nos estágios, que juntam muitos alunos e escolas diferentes: “eles adaptam-se muito bem, “porque já estão ensinados a trabalhar assim, a pensar assim, em conjunto”. E as escolas “também ganham muito com a Orquestra”. Um exemplo disso: “turmas onde a Orquestra Geração é uma disciplina curricular, são as turmas que têm melhores resultados dentro da escola”.
Ideias sublinhadas por António Barbosa, e partilhadas por todos. Tal como o sentimento de que todos os professores gostam mesmo de estar aqui. Na verdade, “não deve haver outra forma de estar aqui”.
Não pode ser só eu, tem de ser o grupo todo
Ana foi aluna na Miguel Torga. Neste momento já não está só como aluna, mas também como monitora e professora/dinamizadora da Orquestra de Afetos.
Da sua experiência como aluna, Ana guarda uma boa memória: “No início era tudo fantástico. Podíamos fazer ensaios a toda a hora, passávamos a vida aqui todos juntos, convivíamos muito, fazíamos muitos concertos em montes de sítios, o que era incrível”. Estudou também, entretanto, música no Conservatório Nacional e na Escola Profissional da Metropolitana.
Como monitora, o objetivo é “proporcionar aquilo que nós vivemos enquanto jovens ou tentar proporcionar que estes momentos sejam mais divertidos, menos cansativos e também passar algumas regras, alguns desafios de conduta aos mais novos”. Tendo ainda em conta “que os inspiramos de alguma forma, porque eles vêem-nos também como modelos a seguir”.
Na Orquestra de Afetos, a ideia é “trabalhar os afetos através da música e tentar que também seja um momento especial e diferente” do que marca o seu quotidiano. “Falar de outra maneira que não seja, por exemplo, aos berros, mostrar que também há espaço para outras formas de falar e comunicar”. Tudo isto, introduzindo sempre o elemento música. “É tudo musical, expressivo, teatro também, fazemos muitas coisas diferentes. Músicas infantis, mas também música clássica, música jazz, música de diversas origens culturais, seja de Moçambique, Cabo Verde, Turquia, tentamos levar músicas diferentes e levamos também, às vezes, músicas do seu quotidiano, que sejam importantes para eles”.
Para Rafael, da escola Bartolomeu Dias, em Sacavém, a sua vida foi, no fundo, sempre “aqui”, na Orquestra Geração. “Existem muitos projetos sociais para a transformação social através da música, mas realmente acho que é importante salientar que este é um projeto um pouco diferente”, considera. “Este foca-se em vários pontos. Não só positivos, mas também os negativos. E tentam fazer com que todos nós consigamos perceber o erro e perceber que não temos de ficar tristes por estarmos a errar, mas sim como é que se consegue melhorar.”
Todo o trabalho se desenvolve em equipa. “Não pode ser só eu, tem de ser o grupo todo”. Como numa orquestra: “Temos que trabalhar em equipa”. De outro modo, “ninguém consegue funcionar, porque se alguém do naipe estiver mal, vão acabar por estar todos mal”. Para Rafael, “fazer música é um pouco isto: é estarmos todos na mesma sintonia para caminharmos para algum lado”.
Frequentou a Escola Profissional Metropolitana e é monitor há cerca de 5 anos. Nesta experiência como monitor “abri também muito mais a minha mente, porque foi aí que eu percebi, ok, eles têm imenso trabalho. E eu não me portava assim tão bem, não dava valor àquilo”. Como encarregado de escolas, acompanha os miúdos. “E para mim é mesmo muito bonito”. “Eu acho que dou o meu melhor e acordo mesmo muitos dias a pensar: ok, eu tenho que fazer isto porque também acho que devo um pouco a esta casa”. Na Orquestra, “os mais novos transformam-se completamente. Na escola fazem muitas traquinices, mas, quando entram no palco, parecem outras crianças”.
Bruno está na Orquestra Geração desde 2022, e, para ele, estar na Orquestra sempre foi felicidade e emoção, “algo em que nos divertíamos”. A Orquestra “dá-nos felicidade, dá-nos prazer”. “Há um momento em que já está tudo tão tranquilo - obviamente, se não for uma peça em que tenhamos uma dificuldade mais extrema - e sentimo-nos tão bem ao ouvir o som e saber que está tudo a soar bem, e olhamos para os outros e vemos todos felizes”. “É algo muito bonito”, sublinha. “Às vezes, de certa forma, o instrumento começa a ser algo terapêutico”. Agora, como monitor, Bruno espera “também começar a ter esse prazer de ver os meus colegas mais novos a crescerem e um dia estarem também a trabalhar comigo”.