Artigo:Entrevista com Helena Lima | Estamos todos juntos, não interessa de onde é que vimos

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Entrevista com Helena Lima

Estamos todos juntos, não interessa de onde é que vimos

Lígia Calapez

Helena Lima, Presidente da Associação das Orquestras Sinfónicas Juvenis Sistema Portugal e Adjunta da Direção da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional, está na Orquestra Geração era este projeto ainda um embrião. E é da sua história que nos fala, num primeiro momento de uma entrevista em que se espraiou pelas várias dimensões de um modelo que tem como um lema fundamental “Mais do que Música, Tocamos Vidas”.

A Orquestra Geração(1) germinou de um cruzamento de vontades e saberes. O ponto de partida foi um convite do Departamento de Educação da Câmara da Amadora ao professor António Wagner Diniz, presidente do Conselho de Gestão do Conservatório Nacional – que conhecia o modelo venezuelano El Sistema - para pensar um projeto musical num contexto social.

Entre 2006 e 2007, “fomos criando o modelo daquilo que é a Geração, falando com pessoas da Venezuela, configurando com as características do país e com as possibilidades que havia na altura”, lembrou Helena Lima.

Assim nasceu a Orquestra Geração. O projeto foi para o terreno em 2007/2008, e o bairro do Casal da Boba, na Amadora, foi o ponto de partida. Desenvolveu-se com base no quadro do Conservatório Nacional - a estrutura pedagógica que dá o garante à própria Orquestra -, contando então com o apoio do programa EQUAL, da Câmara de Amadora, da Fundação Gulbenkian, e outras entidades locais.

O fim do programa EQUAL exigia encontrar novas formas de dar continuidade à Orquestra Geração. O que foi possível com o contributo do Alto Comissariado para as Migrações, que proporcionou fazer uma ponte para o Ministério da Educação, integrando a contratação dos professores – “o grande garante da sustentabilidade da Orquestra ao longo destes anos”.

Em 2008 e 2009, a Área Metropolita de Lisboa interessou-se também pelo projeto e lançou o desafio a novas câmaras. E a Orquestra foi-se afirmando, com o apoio do programa CREI – Centro de Recursos Educativos para a Inclusão. E a participação – essencial – das câmaras, quer ao nível dos instrumentos musicais, quer dos transportes. “Nós estamos a falar de realidades em que os jovens dificilmente saem para outros sítios fora do seu contexto mais fechado de bairro ou mesmo de município. E queríamos que este projeto também lhes permitisse conhecer outras realidades e, sobretudo, cruzar pessoas de diferentes origens”.

Atualmente, estão envolvidas cerca de 1800 crianças e jovens, com idades entre 3 e 20 anos, distribuídos pelo programa para o jardim de infância (a Orquestra de Afetos), por orquestras sinfónicas, de cordas, sopros, municipais e jazz.

Ao longo do ano, a Orquestra Geração trabalha em diferentes locais, “sempre com as escolas públicas, que são também nossas parceiras desde o início”. Neste quadro, os estágios são um momento em que se juntam os vários níveis e as crianças e jovens de todas as escolas envolvidas no projeto.

 

“Mais do que Música, Tocamos Vidas” é um lema da Orquestra Geração. Que evolução é que se nota nos miúdos que participam na Orquestra?

O nosso grande foco é efetivamente o social. Ser uma contribuição para, no fundo, uma melhoria de oportunidades, mas também de competências. Que eles fiquem com mais ferramentas para encarar o futuro. Competências que – como já está provado cientificamente - também ajudam ao seu desempenho cognitivo, à parte emocional. Que sejam ferramentas que lhes permitam ter mais sucesso nos seus cursos.

Muitos deles referem, de facto, que a música foi um contributo essencial, também para uma abertura mental, para uma vida mental mais sã, abrir-lhes horizontes de fruição cultural e social, mostrar que o mundo é mais do que o bairro onde habitam e que também podem continuar a fazer música, mesmo estando noutros contextos profissionais.

Dezoito anos depois do seu início, quais são as perspetivas?

Antes do mais, precisávamos de ter uma estrutura administrativa, logística, mais forte, porque poderia dar mais sustentabilidade a estes programas que vamos desenvolvendo. Nomeadamente novos programas.

Neste momento estamos com um programa no Jardim de Infância e que está a crescer. Temos também o programa de Jazz. As próprias orquestras vão-se desenvolvendo e crescendo. Atualmente, ao nível dos seis municípios onde estamos, temos quase 1.800 alunos. Entre o Jardim de Infância, que são à volta de 600 crianças, e cerca de 1.200 que estão no projeto da orquestra.

A formação de professores, é outra área em que investimos. Também temos feito formações em gestão de conflitos. Este ano estamos a trabalhar na área da neurodivergência. Porque, identificadas ou não, temos muitas crianças que nos aparecem com esta situação. E temos de ter mais ferramentas para conseguir trabalhar com elas.

A Orquestra tem um carácter multicultural óbvio. Como é que isso é trabalhado? Que impacto é que tem na própria orquestra?

Antes do mais temos os nossos gera-staff, os nossos alunos mais avançados. Estes jovens, que estão atualmente connosco, já fizeram 3 ou 4 anos de preparação, sobretudo os mais velhos. E também trabalhamos com eles a multiculturalidade, as diferenças, e eles depois transmitem estas ideias e práticas aos mais novos.

Aliás, nós na Orquestra defendemos, desde o princípio, que é um trabalho em equipa e é completamente indiferente de onde vêm, o que é que são. Isto já é uma forma de trabalhar. Estamos todos juntos, não interessa de onde é que vimos, interessa que nos possam também trazer as suas raízes.

E temos tido, ao longo do tempo, arranjos musicais que incluem, por exemplo, um funaná, um dos nossos hits, o Sol de Manhã, que se toca até no Sistema Europa (nós também estamos com os projetos similares na Europa). Tal como uma melodia cigana que nos foi dada por mediadores, no Zambujal. Temos ainda arranjos musicais de música moçambicana, por exemplo.

Participamos também no B-ME, Blending Melodies: Bridging Cultural Identities(2).

O projeto – que decorreu entre 2021 e 2023 - teve como metodologia a criação de parcerias entre compositores locais e músicos com background de migrante ou refugiados, para a cocriação de composições originais.

Ficámos assim com um manancial de obras que juntam diferentes culturas.

Por exemplo, juntámos o Mário Laginha com uma aluna nossa que está a terminar um curso de jazz, e trabalharam uma onda mais jazzística. Outo exemplo: associámos uma jovem, que ainda estava na escola superior, com um músico brasileiro, e fez-se uma cocriação em torno dos sons da Amazónia, que aproveitámos para trabalhar com os alunos a questão ambiental.

São projetos particularmente importantes no momento que vivemos hoje

Sim. Estamos num contexto, num momento muito complexo a este nível. Mas tenho sentido aqui uma reação contra isso, contra essas ideologias, porque sentem que esse não é o caminho.

Estivemos a trabalhar o que era a Pangeia. Nós vimos todos no mesmo território e a nossa mãe é a Lucy, que era um primata que nasceu em África. Tentamos explorar um bocadinho essas temáticas. Também utilizamos por vezes livros que falam destas questões, das diferenças. Procuramos muito trabalhar a diferença, até tendo em conta também a neurodivergência. Perceber que somos diferentes, mas somos todos iguais em direitos.

Queremos que a música seja uma componente muito importante na vida deles e que ajude a melhorar a escola, ajude também o próprio contexto familiar a dar mais valor à escola, a encontrar uma fruição cultural diferente e a ver nos filhos aquilo que eles são capazes de fazer, que às vezes que não conseguem noutras componentes académicas.

(1) https://www.orquestrageracao.pt/

(2) https://www.orquestrageracao.pt/projetos/projeto-b-me