a voz a quem entra
Sara Covas | Dirigente SPGL
A trapalhada dos exames pôs em evidência as consequências do desmantelamento do Ministério da Educação. A propaganda vendida pelo Ministro nas diversas entrevistas, tem o seu contraditório na realidade que professores e, mais tarde (muito mais tarde) pais e alunos encontraram. Referiu o Ministro que este governo investia na formação de professores como nenhum outro e que estávamos preparados e sem falhas para a correção de exames. Tiago Castelhano avalia a resposta do Ministro em -3.
Sara Covas: O ministro referiu que os professores classificadores eram professores altamente qualificados para essa tarefa. Podes referir em que consiste essa “alta qualificação”?
Tiago Castelhano: Por acaso não vi essa declaração, mas só dizer que essa “alta qualificação”, não entendo muito bem porque, por exemplo eu dou aulas há três anos, já trabalhava noutra área, e tinha licenciatura, mestrado em economia, e fui fazer um mestrado, ou seja, o equivalente à profissionalização. Sou um professor profissionalizado. Contudo, no primeiro ano ainda estive a recibos verdes numa escola privada, e depois há dois anos é que passei para o público, sou neste momento já efetivo. Mas nunca me foi dado um tipo de formação específico para classificar exames. Portanto, quando o ministro disse alta qualificação, eu acho que está a mandar assim uma coisa para o ar, a tentar dar graxa no meio dos insultos que já nos fez e tentar dar algum tipo de elogio. Porque a alta qualificação só se for a profissionalização que temos. Porque não foi dada nenhum tipo de nenhum tipo de formação para quem classifica exames. Nem sequer este ano em que passou a ser digital! Ou seja, tu és escolhida para fazer a classificação, há apenas um manual de classificadores que é uma coisa muito resumida, mas não tens qualquer tipo de formação ou qualificação para isso. Até te posso dizer mais. Eu sou dos mais novos na minha escola, tenho lá professores de economia e professoras que dão aulas há vinte/ trinta anos e que não corrigiram exames. E portanto, se fosse por uma questão de qualificação ou experiência, não tínhamos professores acabados de chegar ao ensino a corrigir exames, e tivemos. Mesmo que seja uma tarefa que ninguém deseje, sabemos que temos de a cumprir com a máxima exigência. Falta termos os meios.
Texto original publicado no Escola/Informação Digital n.º 48 | maio/junho/julho 2026