a voz a quem entra | Marta Coelho
Marta Coelho de 24 anos, concilia as aulas de História e Geografia de Portugal na Escola Básica Luís António Verney com o Mestrado em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Não se passaram muitos anos desde que saiu do ensino secundário, mas consegue perceber que já há diferenças consideráveis.
Sara Covas - A escola que deixaste quando acabaste o ensino secundário, é diferente da escola que hoje encontras como professora?
Marta Coelho - Sim, em diversos parâmetros mostra-se imensamente diferente. Lembro-me que em todos os meus anos de escolaridade nunca comecei um ano letivo com professores em falta, sendo que hoje em dia essa não só é a norma, como algo inconcebível para os alunos e pais (parece quase inimaginável ter todos os docentes no início do ano letivo).
Além disso, também me apercebo, enquanto docente, dos reais danos que proveem do decreto-lei 54/2018 que - sob o pretexto de inclusão - limitou o número de profissionais aptos para apoiarem alunos com necessidades específicas e colocou essa carga no professor, que com turmas de números já demasiado elevados, vê-se quase impossibilitado de cumprir o seu trabalho na totalidade, pois de repente tem que lidar com realidades diferentes e com diversas necessidades, todas na mesma sala (dou o exemplo de uma turma minha em que, dos 30 alunos, 7 têm necessidades especiais, cada um com as suas características específicas e que pede um acompanhamento muito próprio e individual que, infelizmente, muitas vezes acaba por ser impossível de providenciar devido às necessidades dos restantes e da manutenção de mediar a postura e comportamento dos alunos na sala de aula).
Além disso, também noto que as turmas são mais etnicamente diversas - o que é extremamente positivo - mas vejo a falta de capacidade de resposta por parte das escolas, não lhes sendo providenciadas professores específicos de língua portuguesa não materna (carga essa dada aos professores de português, muitas das vezes não familiarizados com os métodos e necessidades concretas dos alunos) e havendo uma enorme dificuldade em acomodar os horários, quer dos docentes, quer dos alunos, para essas aulas específicas (sendo que no meu caso os alunos passaram mais de um mês sem essas aulas, até alunos A0 que não têm qualquer conhecimento ou domínio da língua, tendo somente sido aconselhado aos docentes a realização de materiais de estudo extra, traduzido nas diversas línguas).
Em suma vejo os agravamentos e resultados da falta de investimento na escola pública, que não só continuam, como se agravam.
Texto original publicado no Escola/Informação Digital n.º 49 | setembro/outubro 2026