Artigo:A Memória do Esquecimento - Sílvia Baptista | chiado books

Pastas / Informação / Todas as Notícias

A Memória do Esquecimento

Sílvia Baptista | chiado books

Lígia Calapez | Jornalista

“Somos muto diferentes, mas tão iguais!”. Esta a frase que acompanha o título do livro de Sílvia Baptista e que, de algum modo, espelha a linha que atravessa as diferentes partes que constituem a obra.

O livro apresenta-se como uma “homenagem às vítimas dos resquícios do colonialismo na sociedade portuguesa atual”. E é fundamentalmente constituído por um conjunto de episódios diversos, flaches sobre a vida dos habitantes de um bairro de barracas, em que, muito naturalmente, se fundem ficção e factos reais. Situações que se desenvolvem em torno de uma carrinha de apoio à saúde. Vozes e histórias que nos falam de problemas - que hoje ainda, em muitos casos, se mantêm atuais – como casas improvisadas, sem o mínimo de condições de habitabilidade, sem acesso a água ou a eletricidade, higiene básica, transportes acessíveis. Guetos estigmatizados. Mas em que se resiste, se organizam respostas possíveis, se reforçam laços de solidariedade, se partilham espaços de culto entre católicos e islâmicos.

O livro inclui ainda um prólogo em que se esboça um enquadramento histórico do que foi o domínio colonial português. Uma breve síntese sobre a guerra colonial. E, ainda, uma súmula dos múltiplos crimes de guerra vividos ao longo de todo esse período – “crimes de lesa humanidade”, nas palavras do então bispo de Nampula, “massacres de inocentes, de prisioneiros de guerra, de civis julgados coniventes com o inimigo”; e um apanhado geral de presídios e campos de concentração, cruzando factos e realidades de Portugal e colónias e incluindo práticas e leis como o Código de Trabalho dos Indígenas ou a criação de Aldeamentos.

Conclui com um apelo: “Cabe a cada um de nós não permitir que o silêncio destrua a memória nem que a chama da liberdade se apague”.

Texto original publicado no Escola/Informação Digital n.º 49 | setembro/outubro 2026