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Exposição “Elas tiveram medo e foram”
Museu do Aljube – Resistência e Liberdade
Sofia Vilarigues | Jornalista
“Em fevereiro deste ano de 1961, fui de novo presa pela PIDE, porque em Portugal é proibido lutar por mais pão, mais cultura, um lar confortável, uma vida alegre, digna e feliz”, escreveu Fernanda da Paiva Tomás.
“Picaram-lhe as unhas com alfinetes, queimaram os peitos com cigarros, foi-lhe aplicada a tortura do sono, o que levou a que tivesse alucinações e ‘visse bichos’, e partiram-lhe um braço quando a empurraram pelas escadas”, testemunhou o filho de Idalina Maria Feliciano e a sua mulher.
Estas partilhas, entre outras, podem-se ler na brochura da exposição “Elas tiveram medo e foram”, patente no Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, de 11 de março de 2026 a 31 de janeiro de 2027.
A exposição, com curadoria de Rita Rato, foca-se “nas experiências das mulheres presas políticas. Quem foram? Como resistiram nas prisões? Como suportaram, quem as apoiou?” e “tenta compreender melhor estas dimensões a partir das suas histórias de vida e continuar a aprofundar o conhecimento sobre este imenso património de resistência à ditadura”.
“Elas tiveram medo e foram” expõe os nomes das mulheres que resistiram à ditadura e conta com dois murais, de Mariana, a Miserável e Marta Nunes.
“O mural retrata mulheres que avançam com passo firme, de braços dados, na mesma direção. Neste gesto de união, o medo transforma-se em força coletiva. O caminho que percorrem é também metáfora da liberdade que hoje trilhamos, uma conquista tornada possível pela coragem das que resistiram e lutaram contra o fascismo”, declarou Mariana, a Miserável, ao Museu do Aljube.
“A história irá sempre contar os feitos dos ilustres, mas sabemos que em muitos acontecimentos históricos não existiram apenas por quem lembra a história. Todas estas mulheres foram parte de uma direção diferente, os livros não têm o seu nome e praticamente nada se sabe de quem foram, a sua existência prova não só a estrutura de um regime mas também a força que pode existir em desejar algo melhor, e nesse movimento individual, todas juntas com todos os outros devolver a um povo a liberdade”, afirmou Marta Nunes.
“As mulheres resistiram à ditadura em todas as frentes. Atribuir um nome a estas quase duas mil mulheres é o mínimo que podemos fazer”, escreveu Rita Rato divulgada pelo Museu do Aljube. Fazendo na brochura referência a obras e investigadores que se debruçaram sobre este tema, desejou que a exposição “seja um ponto de partida para que se estude e pesquise mais, se divulguem mais estas histórias de vida e de outras mulheres resistentes”.
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 314 | março/abril 2026