Solidariedade, precisa-se!
O SPGL na luta pelos direitos dos Palestinianos
Sofia Vilarigues e Lígia Calapez
“Objetividade e rigor de análise não são sinónimos de neutralidade. São, aliás, fundamentos para uma mais sólida posição em defesa dos direitos dos palestinianos”. Esta uma base fundamental da iniciativa “O SPGL na luta pelos direitos dos Palestinianos”, que se insere na onda de solidariedade internacional.
Do programa previsto, aqui fazemos uma breve síntese das duas primeiras sessões.
"Cultura e Informação como meios de luta do povo palestiniano"
A primeira sessão, no passado dia 14 de janeiro, no auditório do SPGL, sobre "Cultura e Informação como meios de luta do povo palestiniano", trouxe-nos Shahd Wadi, palestiniana, escritora, investigadora, tradutora, autora de vários livros. E Alexandra Lucas Coelho, jornalista galardoada com vários prémios e autora de vários livros, de entre os quais "Gaza está em toda a parte", que abordou, numa gravação. Almerinda Bento apresentou a obra da jornalista e o livro de poesia de Shahd Wadi “Chuva de Jasmim”.
A abrir a sessão, António Anes, em nome da Direção, destacou a presença do SPGL nas ações pela Palestina. Apontou a presença da embaixadora da Palestina no congresso da FENPROF. Referiu que “criámos um pequeno vídeo da luta dos professores palestinianos, de solidariedade com os professores e alunos palestinianos, disponível no site da FENPROF e no YouTube”. Aludiu a um encontro em janeiro com a embaixadora da Palestina, “para debater a solidariedade e apresentar uns contornos daquilo que vai ser a criação de uma unidade pedagógica a desenvolver com alunos e professores em vários contextos - ‘Palestina e palestinianos têm direito à autodeterminação’”. Ainda em janeiro, referiu a visita, no âmbito da Internacional da Educação, à Palestina, com Manuela Mendonça. Soube-se, entretanto, que não conseguiram entrar. Foram retidos e interrogados pelas forças de ocupação israelitas, proibindo a sua entrada em território palestiniano.
"Gaza está em toda a parte"
O livro de Alexandra Lucas Coelho reúne reportagens, crónicas, alguns textos nunca publicados e 148 fotografias a cores, quase todas inéditas. Temporalmente vai de uma última ida a Gaza, antes de 7 de outubro, até março de 2025.
Como disse Alexandra, na gravação de apresentação: “Não sabíamos, diz a Europa desde Auschwitz. O Holocausto foi o mal só suportável no futuro humano porque ‘não sabíamos’. Gerações após gerações, juraram nunca mais, acreditando que saber teria feito toda a diferença. Hoje, sabemos que não. Dois anos após o 7 de outubro, Gaza mostra como tantos de nós veem o mal mais atroz, superado em crueldade dia a dia, sem que isso faça diferença”.
Almerinda destacou também o outro lado - Alexandra Lucas Coelho traz ao longo do livro inúmeros nomes e exemplos de heroicidade num tempo de desumanidade e horror, de que aqui referimos alguns. O médico de Al-Shifa que se recusou a deixar o hospital e a abandonar os doentes à sua sorte; o herói e líder nacional Marwan Barghouti, preso desde 2002 e condenado a prisão perpétua; os milhares de jovens e crianças presos arbitrariamente nas prisões israelitas e sujeitos a torturas atrozes; Ahmed Tobasi e o seu Freedom Theatre que faz do teatro a sua forma de resistência; os Tamimi e os habitantes duma pequena aldeia da Cisjordânia empenhados em defender a sua água e a câmara que Bilal usou para documentar e levar ao mundo através do canal de YouTube as incursões dos buldózeres israelitas; as consequências de se ser objetor de consciência e recusar o serviço militar obrigatório como é o caso da jovem israelita Sofia Orr, presa por ser considerada traidora.
Casa e verso
Depois, foi a vez da poesia. E sobre a vivência de uma palestiniana. Shahd Wadi.
“À medida que se folheia e se vai lendo ‘Chuva de Jasmim’, sente-se a urgência da poesia em Shahd”, disse-nos Almerinda Bento. “Ela faz poesia, arte como forma de resistência, como grito de liberdade. Ela que escolheu ‘viver na terra do mais ou menos’, que não nega algum desconforto com a língua, a tropeçar às vezes nalgumas palavras, é, no entanto, hábil a brincar com as palavras, a criar lengalengas, ‘Tráfico Humano’ (pág. 61), a provar-lhes as subtilezas, conseguindo ser doce e corrosiva, tendo o condão de trazer a poesia para o quotidiano”. Mas é no último capítulo do livro, “que os poemas me sugerem palavras-chave bem nítidas como ‘Morte’, ‘Genocídio’, ‘Palestina’, ‘Revolução’, ‘Resistência’, ‘Raiva’, ‘Esperança’”.
Shahd Wadi, a abrir, destacou: “Queria dizer que já que aqui também se falou das escolas na Palestina, há um termo que está a ser utilizado neste momento que é o escolacídio, que é um tipo de genocídio, porque é um genocídio. Não são só as bombas a cair. É também acabar com a possibilidade de viver de um grupo. Neste caso o povo palestiniano. E, portanto, neste momento em Gaza não há escolas, não há universidades, mas há pessoas a estudar apesar disso. Há escolas e universidades improvisadas para as pessoas poderem estudar. E esta é a resistência do povo palestiniano”.
Sobre a sua experiência, referiu que “eu tenho um bilhete de identidade palestiniano, assim como a minha mãe e o meu pai, e o meu irmão nunca foi à Palestina, ao contrário de nós. E assim, a primeira vez que eu fui à Palestina, foi quando eu tinha 15 anos. Há vários palestinianos com vários bilhetes de identidade. O meu é o bilhete de identidade verde da Cisjordânia. Há outros que têm o bilhete de identidade de Gaza, há outros que têm de Jerusalém, que podem, por exemplo, ir ao aeroporto israelita, mas não podem circular para além de Jerusalém. E há os palestinianos que conseguiram ficar depois de 1948 e têm o bilhete de identidade, têm a cidadania israelita, mas não são iguais aos cidadãos israelitas judeus, são considerados cidadãos de segunda classe. E, portanto, eu sou daquelas que só me é permitido ir à Cisjordânia”.
Já em jeito de conclusão, afirmou que “também aquilo que eu quero partilhar convosco é que um poeta modernista egípcio diz que a palavra Bayt, em árabe, quer dizer casa e quer dizer verso. A mesma palavra quer dizer estas duas coisas. E é muito interessante que os palestinianos, que têm a casa ocupada, que não têm a casa neste momento, escolham o verso para encontrar a sua casa”.
Palestina pelo olhar de quem lá esteve
Mariana Mortágua, que integrou a Global Sumud Flotilla Mission, e José Manuel Rosendo, jornalista e autor de várias obras sobre o Médio Oriente, foram os oradores na 2.ª sessão. Uma sessão que cruzou o testemunho de uma ação “objeto de grande discussão, elogiada e muito vilipendiada”, como referiu António Avelãs, com a multiforme experiência de um jornalista “considerado um especialista em tudo o que diz respeito às questões do Médio Oriente”.
A luta pela liberdade do povo palestiniano é transversal
“O envolvimento do movimento sindical com a causa da Palestina é muito importante e ainda muito incipiente em Portugal” começou por destacar Mariana Mortágua, valorizando a iniciativa do SPGL.
“Um dos momentos mais emocionantes e emotivos quando nós estávamos na flotilha foi quando recebemos as notícias da greve em Itália”, lembrou. Greve que mostra, também, “como a luta pela liberdade do povo palestiniano é transversal”. Ela atravessa vários movimentos. E, considerou, “acho que condensa hoje as várias lutas da esquerda e as várias lutas pela liberdade”.
Mariana Mortágua salientou, como objetivos da Global Sumud Flotilla Mission (a maior flotilha, mas não a única – “Ao longo das últimas décadas houve várias formas de flotilhas, quer por via terrestre, quer marítima, que tentaram romper o cerco a Gaza”): antes do mais, “simbolicamente quebrar aquele cerco”; e ainda “pôr em xeque os governos de origem dos participantes das flotilhas”.
Num relato vivido e emotivo, a oradora referiu as principais barreiras que se levantaram à concretização desta ação. Desde logo, o desafio de reunir dezenas de embarcações “que são financeiramente e logisticamente difíceis de reunir, sabendo que elas ficam lá. Embarcações que têm de estar prontas ao mesmo tempo e navegar ao mesmo tempo”. A este desafio somaram-se diversas formas de sabotagem: o ataque por drones, nomeadamente incendiários, a introdução de ácido dentro do depósito de água de um dos barcos, problemas mecânicos inexplicáveis. E, ainda, a pressão política sobre os governos dos países dos vários portos utilizados. A pressão política sobre os governos dos países dos participantes na Global Sumud Flotilla Mission (que levou o governo português a limitar-se a dizer aos portugueses para voltarem para trás…).
O momento da intervenção das forças israelitas foi a última barreira, com a prisão dos participantes.
Uma dinâmica de luta que, entretanto, não vai parar. “Vai haver uma nova flotilha no final de março, princípio de abril”.
Fotos de Gaza, de há muito sujeita a sistemáticas agressões por parte de Israel
José Manuel Rosendo apresentou-nos – através de um conjunto de fotografias, desde 2004 - um sintético, mas elucidativo esboço do que tem sido a realidade de Gaza, ao longo dos anos, sujeita a sistemáticas agressões por parte de Israel. Incluindo fotos da “Gaza que já não existe”.
2004, Beit Lahia, uma rua normal, junto à praia, mas já com imagens de destruição. O campo de Jabalia, no norte de Gaza, com marca de destruições (numa fase em que os campos de refugiados não eram de tendas – “Desde 1948, depois desde 1967, esses campos foram-se transformando. São cidades, embora construídas de uma forma completamente desordenada”).
- A resistência simbólica dos colonos, face à retirada ordenada por Ariel Sharon. O aeroporto de Gaza, construído depois dos acordos de Oslo, e logo destruído.
- Eleições legislativas, na sequência da morte de Arafat, em final de 2004, que se seguem às eleições presidenciais de 2005.
- “Um momento crítico para a causa palestiniana”. Na sequência da vitória eleitoral do Hamas e da recusa da Fatah em formar governo conjunto, gera-se uma situação ambígua, de confronto aberto, em que muitos elementos da Fatah, perseguidos pelo Hamas, tiveram de fugir.
- Imagens dos “famosos túneis”. Construídos “porque era a única forma que os palestinianos tinham de conseguir obter aquilo que Israel não permitia entrar de outra forma”.
- O primeiro momento de guerra depois da retirada dos colonatos. “Começou em dezembro de 2008, terminou em janeiro de 2009. Gaza foi duramente atingida”.
2018-2019. A Grande Marcha de Retorno. A exigência de retorno às suas terras, reuniu muitos milhares de palestinianos, semanalmente, durante mais de um ano, na fronteira entre Gaza e Israel. As forças de Israel mataram, então, centenas de manifestantes.
Atualmente. É a devastação total.
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 313 | janeiro/fevereiro 2026