O caos nos Exames
Nesta data, 3 de junho de 2026, pese embora a “confiança” do ministro, ainda permanece a ameaça de o processo de exames nacionais se tornar um profundo (e preocupante) caos. Falhas graves no exame de Português do 12º ano, dificuldade de acesso dos professores classificadores às plataformas digitais, precipitadamente erigidas em novos métodos de avaliação e correção, confusão nas equipas escaladas para esses trabalhos, com o Ministério a responsabilizar os diretores de agrupamentos e estes a recusarem tal acusação…
A dimensão real do caos instalado pode avaliar-se pela importância que jornais e rádios (e algumas televisões) vêm dando à situação. É desse profissional trabalho jornalístico que aqui reproduzimos algumas passagens
DIFICULDADES NO ACESSO ÀS PLATAFORMAS.
Professores classificadores ainda não receberam exame de Português
“Atraso foi denunciado esta quarta-feira pela Fenprof, que sublinha o "momento particularmente exigente para o sistema educativo, com milhares de provas que têm de ser digitalizadas, distribuídas e classificadas dentro de prazos apertados".(Correio da Manhã, 19 de junho)
Professores preocupados por não conseguirem aceder à plataforma de correcção
“O PÚBLICO tem recebido (…) informação de docentes de diferentes escolas que se dizem preocupados. “Sou professora do ensino secundário e estou aguardar a ‘chegada’ das provas para classificação. Provas que foram respondidas manualmente, com caligrafias muitas vezes difíceis de decifrar, a que este ano acresce o facto de esse trabalho ser feito em frente a um monitor, o que aumenta o esforço de leitura”, relatou uma docente”. (Público, 27 de junho)
CRISE NO USO DA PLATAFORMA
Professores admitem pedir escusa na avaliação digital
“Tem sido assim, de dez em dez minutos, em frente ao computador, a ver se a plataforma já funciona. Hoje [ontem] de manhã voltei a ter acesso!” Tem 36 respostas para classificar. Não tem informação se ainda lhe vão “chegar” mais respostas. “Não sei.” Mas alerta desde já: “Há uma folha de continuação que não aparece, percebo isso porque há uma resposta de um aluno que não acaba, a última frase está suspensa.” (Alberto Reis, professor em Seia, Público, 28 de junho)
“ João Francisco Silva, professor de Português da Escola Secundária Braamcamp Freire, em Lisboa, continuava ontem sem conseguir aceder. Quatro dias de atraso. “Tenho estado com o portátil sempre ligado. É exasperante. Não vou para lado nenhum sem ele. Temos de entrar com os nossos dados pessoais das Finanças. Insiro e aparece-me uma fotografia como pano de fundo, de jovens a escrever, e a frase ‘Não foi encontrado, redireccionar para o log-in’. Mas não vai para lado nenhum, não sai daqui.”(Público, 28 de junho)
ERROS NA CONSTITUIÇÃO DAS EQUIPAS DE AVALIAÇÃO
Professores preocupados por não conseguirem acesso à plataforma
(…)” O comunicado reporta ainda outro tipo de problemas: “Professores aposentados há mais de um ano foram convocados para classificar exames; professores de Geografia receberam convocatórias para classificar exames de Francês; professores foram convocados através de escolas onde já não leccionam, mas onde exerceram funções anteriormente, situação que poderá conduzir à classificação de provas dos seus próprios alunos”. (Público, 27 de junho).
Professora falecida chamada para corrigir exames nacionais
“Uma professora da Figueira da Foz, aposentada desde dezembro e entretanto já falecida, foi convocada para classificar exames de Física-Química. O caso é um dos vários episódios reportados no processo de correção das provas nacionais, que este ano decorre pela primeira vez em formato digital e que está a gerar críticas de professores, movimentos da escola pública e direções escolares. (CNN Portugal 29 de junho)
O MINISTÉRIO RESPONSABILIZA AS ESCOLAS POR ESTES ERROS. MAS OS DIRETORES RECUSAM RESPONSABILIDADES
Diretores incomodados acusam o ministério de “lançar cortina de fumo sobre as escolas
.”O ambiente devia ser de “serenidade”, mas um comunicado enviado no sábado à noite pelo Júri Nacional de Exames ( JNE) e pelo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Eduqa) gerou “revolta, descontentamento e desagrado” nos dirigentes escolares. Os dois organismos apontam às escolas e aos directores a responsabilidade pelos erros nas convocatórias de professores para a classificação de provas. Primeiro, foi a Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas a reagir, ao dizer que não é “aceitável que se procure transferir para as escolas responsabilidades que manifestamente não lhes pertencem”. Ontem, a Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE) lamentou o “comportamento surpreendente” do Eduqa e do JNE ao terem decidido “lançar uma cortina de fumo sobre a direcção das escolas”. (Público, 30 de junho)
O PRIMEIRO ERRO: O USO INDEVIDO DE UM “CARTOON” NA PROVA DE PORTUGUÊS
Repetição de cartoon levanta polémica no Exame de Português
Um cartoon sobre trabalho infantil apareceu no exame nacional e num livro de apoio. Catedrático defende anulação; ministério garante que elaboração do exame foi anterior à publicação do livro.
(… )para Carlos Ceia, “há uma violação do princípio da confiança” em todo o processo e a pergunta deve ser anulada, porque, “objetivamente houve alunos que tiveram uma sorte que lhes deu uma vantagem”. (Diário de Noticias, 17 de junho)
A posição do ministério variou: começou por garantir que elaboração do exame foi anterior à publicação do livro; mas tal não era verdade. E obrigou a uma “auditoria”…
Para Fernando Alexandre, trata-se de "uma falha objetiva da equipa responsável pela elaboração do exame na verificação de questões/itens já disponibilizados por editoras". (Diário de Notícias, 18 de junho)
Parecer sobre exame de Português gera revolta entre conselheiros do Eduqa
“Documento usado pelo Governo para defender exame do 12.º foi feito à revelia de conselheiros científicos”. (Público, 30 de junho)
As causas
Destruir será sinónimo de reformar?
“Há uma gramática própria neste Governo em matéria de educação: primeiro faz-se, depois prepara-se”. (…)
“Concentrar em dois organismos nascidos de fusões aquilo que estava distribuído por várias direções-gerais não é, por si, garantia de coerência; e a transição, que tem de estar concluída até 31 de dezembro de 2026, faz-se com um calendário que confunde velocidade com método” (…)
“O problema não é a intenção; é que a fusão de organismos, conduzida nestes moldes, não produz eficiência. O que verificamos é uma redução acentuada dos recursos humanos e o esvaziamento de funções que ninguém pensou em substituir. Juntam-se nomes num organograma, perde-se gente pelo caminho, devolvem-se professores às escolas e as competências que essas pessoas detinham — muitas delas técnicas, acumuladas ao longo de anos — evaporam-se com elas”. (…)
“O segundo exemplo é a digitalização dos exames, que são um emblema do argumento faz-se primeiro, prepara-se depois. A decisão de digitalizar a correção — provas em papel, depois digitalizadas e classificadas online, pela primeira vez e em larga escala — foi tomada, apesar dos avisos. O resultado conhecemo-lo nestes dias: credenciais que não chegam aos classificadores, plataformas que pedem dados, mas não entregam itens para corrigir, um calendário “ajustado” à pressa e a garantia, sempre repetida, de que os prazos se cumprirão. Quando algo falha, a responsabilidade nunca cabe a quem decidiu dar uma passada maior do que a perna; cabe ao “sistema”, às “dificuldades técnicas”, a uma averiguação que há de vir. Pilotar a transformação digital de uma avaliação que decide o futuro de dezenas de milhares de jovens não é terreno para ensaios em direto, cheios de secretismo e dúvida”. (Excertos de texto de Isabel Flores, Público, 29 de junho)
MINISTRO RECONHECE QUE HÁ ERROS E PROMETE APURAR RESPONSABILIDADES
Ministro diz que prazos serão cumpridos, mas não convence professores
“O presidente do Eduqa comunicou ontem [terça-feira] que conseguia cumprir prazos”, prosseguiu (o ministro). “Eles são responsáveis pelo processo”, lembrou. “O que posso garantir é que prestarei contas sobre o rigor da avaliação das provas”, e se estiver em causa o rigor e a equidade da avaliação “serão feitos os ajustamentos que forem necessários”. Mas deixou um aviso: “Se houver alteração ao calendário dos exames, obviamente terá de haver responsabilidades.” E esta afirmação vale para todos: “No fim, a responsabilidade de cada entidade será avaliada, incluindo a do ministro”. (Público, 2 de julho)