Hipótese Cinema | “Ver, escutar, experimentar”
Lígia Calapez e Sofia Vilarigues | Jornalistas
“Por uma rede para a descoberta do Cinema”, é o sugestivo tema que acompanha o título do encontro “Hipótese Cinema”, que se desdobrou ao longo dos dias 25, 26 e 27 de fevereiro, entre a Cinemateca Portuguesa e a Escola Superior de Teatro e Cinema. Com a participação de Alain Bergala.
Aqui nos cingimos a algumas notas sobre a primeira sessão – “Ver, escutar, experimentar” – A transmissão do cinema dentro e fora da escola.
Duas datas que se cruzam, duas comemorações, foram celebradas neste encontro: 30.º aniversário do programa pedagógico internacional Le Cinéma, Cent Ans de Jeunesse (CCAJ), um projeto que nasceu, quando se comemorou um século de cinema em 1995, na Cinemateca Francesa, e o 25º aniversário da Associação dos Filhos de Lumière.
“Tudo se deve passar fazendo cinema”
Alain Bergala, cineasta, professor, fundador do programa CCAJ e autor, entre outras publicações, do livro de referência que deu título ao Encontro, “A Hipótese Cinema – Pequeno tratado sobre a transmissão do cinema dentro e fora da escola”, editado em 2022 em Portugal, falou do cinema em França e do método pedagógico do CCAJ.
Antes de iniciar a sua intervenção foram exibidos dois filmes ilustrativos, feitos no âmbito do CCAJ. Um francês e um português, que Alain Bergala comentou. O primeiro filmado num bairro muito pobre, com uma comunidade cigana. O segundo realizado em Serpa, com uma forte presença da Natureza. Em comum o tema Indivíduo, Grupo e Comunidade. E o facto de nos dois filmes haver alguém à parte, mas depois grupo e comunidade encontram-se.
“Em França sempre houve muito trabalho feito no âmbito do cinema”, destacou Alain Bergala. “Depois da Guerra houve movimentos populares que decidiram juntar-se e questionar-se como é que podemos fazer para que isto não volte a acontecer”. Houve, em França “dois grandes movimentos, e ambos escolheram o cinema. Por uma razão muito simples, é que o cinema podemos mostrá-lo em todo o lado e as pessoas têm coisas para dizer. Se tivesse sido a literatura ou a música teria havido maiores necessidades e não haveria a mesma equidade”. E, “já havia professores que, em nome destes movimentos, trabalhavam o cinema com os seus alunos”.
O CCAJ “começou em 1995 e eu já tinha uma grande experiência nas questões do cinema. Pensei que eram precisas ideias muito concretas e fortes”.
A primeira regra “é que não se deve fazer uma coisa muito curta. Não se faz um atelier de cinema em 15 dias. Então, partimos da ideia de que deve durar um ano escolar”.
Outra ideia “é que o professor não deve estar sozinho. Estão envolvidos os alunos, o professor e alguém do cinema. E a pessoa do cinema tem de seguir o projeto durante o ano inteiro”.
“Nós queríamos fazer algo sério, organizado e com princípios” e um dos princípios “era que o cinema deveria ser visto como uma arte e não como uma linguagem”.
No CCAJ, o ano não começa a fazer o filme. Há um tema todos os anos. Pode ser “um tema específico do cinema, por exemplo, fora de campo. Mas também temas da realidade. Por exemplo, o indivíduo-grupo-comunidade é um assunto da realidade que tinha que ser tratado”.
Mas é preciso “falar deste tema através do cinema. Não é só falando sobre ou discursando, tudo se deve passar fazendo cinema”.
No primeiro período começa-se por trabalhar excertos de filmes, que são escolhidos e apresentados. E que “permitam a quem está a ver, aos alunos, que compreendam o tema sem que se tenha que falar do próprio tema”.
No princípio, “o que eu desejava era acabar com a pedagogia vertical, que mostra que há alguém que sabe e que os outros aprendem”. A proposta de ver excertos de filmes “é que os alunos, por eles, descobrissem os temas”.
Isto leva meses a preparar, “a proposta passa por mostrar filmes de todas as épocas e de todas as realidades culturais”.
A seguir “propomos uma segunda parte que é mais individual. Se começamos a trabalhar logo pelo coletivo, há qualquer coisa que não resulta bem, para cada um dos alunos. Nós queremos que os alunos façam uma reflexão individual eles próprios e que experienciem filmar eles próprios. Se não, é um em cada papel, o que escreve, o argumentista, o que filma. E a ideia é que eles possam experienciar o todo. Que cada um experiencie por si próprio o que é fazer um filme. Depois a fase do coletivo é uma outra etapa”.
No final do ano, “esses trabalhos e essas turmas juntam-se e mostram os filmes uns aos outros”.
Filhos de Lumière – como tudo começou
“Houve um primeiro contacto com Le Cinéma, Cent Ans de Jeunesse, quando vimos um filme que se chamava Les Jeunes Lumière, na Cinemateca. Um filme feito especialmente para a celebração dos 100 anos de cinema”. Este o primeiro momento que, nas palavras de Teresa Garcia, foi o embrião da ideia que levaria à criação da associação Filhos de Lumière. “Ficámos com vontade de fazer qualquer coisa”.
Isto foi em 1996. A ideia começou a concretizar-se na sequência de um convite para trabalhar na Porto 2001, capital europeia da cultura. “Começámos a pensar em fazer alguma coisa com os jovens, com crianças. Descobrimos, entretanto, o livro Hipótese de Cinema. Que tem tudo o que é essencial para pensar um projeto” - lembrou Teresa Garcia. “Criámos então a Associação e um programa a que chamámos O Primeiro Olhar.”
Os primeiros passos foram “a trabalhar com os bairros mais difíceis, com miúdos ciganos, com bairros mesmo muito isolados, onde não havia nada”. Uma prática – depois transferida para Lisboa – que nunca foi abandonada, mesmo quando, a partir de 2006, se iniciou a atividade com as escolas. O apoio da DGArtes e de muitas câmaras permitiu que fossem implementados projetos em vários sítios do país.
Um trabalho muito profundo, que se desenvolve há muitos anos. “E porque é que não nos cansamos disto?” Porque todos os anos é diferente, disse Teresa Garcia. “Todos os anos se aprendem coisas novas”. Um espírito que passa para as crianças e jovens, nomeadamente nas escolas. “Eles estão sempre a ver coisas, eles estão sempre a descobrir. E isso, para nós, é a coisa mais extraordinária que há. É ver como eles descobrem, é ver como eles se entusiasmam”.
Falando de pedagogia
De pedagogia falou, naturalmente, de Alain Bergala, cineasta, professor, fundador do programa CCAJ. Mas a pedagogia impregnou, de facto, muitas das intervenções havidas. Valorizando aspetos essenciais da prática do CCAJ e dos Filhos de Lumière: “não há receitas fechadas, ou seja, há aqui uma metodologia que é apresentada nas escolas, mas depois que se adapta também à capacidade que a escola tem de fazer as coisas, de responder”. Ou levantando questões práticas: “como é que nós, que vamos querer trabalhar com esta escola, podemos introduzir estas ideias, deixar a semente, que tipo de materiais é que podemos deixar aos professores?” (no site de Le Cinéma, Cent Ans de Jeunesse, está toda a informação[i]).
“Pensar uma pedagogia - não apenas do cinema, mas uma pedagogia que pode servir para todas as outras áreas, que nos pode ajudar também a mudar a própria escola, a pensar ou repensar a escola no nosso tempo”, foi o tema aprofundado por Paulo Pires do Vale, do Plano Nacional das Artes.
Apoiando-se no trabalho e no livro de referência de Alain Bergala, começou por destacar, como primeiro ponto dessa pedagogia, “a noção de encontro”, como “aquilo que se procura promover”. Neste caso, “este desejo de, na escola, os alunos, os professores, podermos encontrar um filme que nos toque, que nos marca, que nos dá de sentir, que nos dá de pensar”.
“A obra não está para nos dar respostas”, sublinhou. “Mas às vezes para levantar perguntas, para levantar questões, para desequilibrar, para depois poder voltar a reequilibrar”.
Nesta dinâmica valorizou, em particular, “a noção do espectador-criador. Criar-se a si mesmo”. “Talvez essa seja a forma de criatividade que nós devíamos promover mais”, considerou. E, nesta ligação entre a arte e a escola, entre a arte e cada um dos cidadãos, “não pensar apenas o momento inicial, mas o que sucede depois”. Pois, “os grandes encontros são esses que continuam a ecoar, quando já não está lá a obra”.
A concluir, realçou um tema que o trabalho de Alain Bergala também aponta: a questão da alteridade. “Esta noção de alteridade do outro é absolutamente determinante para que possamos superar um dos problemas do nosso tempo, que é o medo do outro. O cinema tem aí um papel fundamental. A possibilidade de se fazer sair de si mesmo, sairmos de nós, para compreendermos melhor o outro.”
Entre o passado e o futuro
Que toda esta experiência – “este espírito de inquietação, que é permanente e que faz parte de toda a pedagogia e todo o trabalho que tem sido levado a cabo” – seja o princípio, também, deste encontro, defendeu Manuel Guerra, da Escola Superior de Teatro e Cinema. “E é precisamente do que precisamos – criar espaços de encontro”, considerou, construindo “uma rede para a descoberta do cinema”.
Este será um passo mais, num caminho que não começou agora. Mas vem de há muito. Alain Bergala começou por referir um conjunto de homens e mulheres que se envolveram, ainda antes dos Cineclubes em projetos. E é justo lembrar que, também em Portugal, “nomeadamente num período de ditadura, de opressão, tivemos um conjunto de homens e mulheres que sonharam espaços de encontro”, valorizou Manuel Guerra.
Hoje há, assim, muito trabalho feito, todo um património de experiência acumulada.
Mas há muito também para fazer, sublinhou. “Há também que tentar juntar todos os que atualmente se têm dedicado e que se dedicam a estes projetos, colocarmos todos num lugar de franca partilha de dificuldades. Colocarmos todos à roda e conversarmos um pouco sobre as propostas, os desafios que se estão a enfrentar.” Cumprindo assim, um objetivo central deste encontro: “ser um contributo para a criação de uma «rede» para a descoberta do cinema, designadamente junto das novas gerações”
[i] https://www.cinemacentansdejeunesse.org/
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 314 | março/abril 2026