Artigo:Há sempre um caminho

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Há sempre um caminho

Lígia Calapez e Sofia Vilarigues | Jornalistas

“Pretendemos que este seja um espaço de esclarecimento, de pensamento crítico e também de afirmação clara desta nossa solidariedade entre povos, que é parte integrante da nossa ação”, destacou Cátia Domingues, vice-presidente do SPGL, na abertura da terceira sessão da iniciativa “O SPGL na luta pelos direitos dos Palestinianos”, sob o tema “Palestina-Israel: passado, presente e futuro”, que contou com a presença de Carlos Duarte Almeida e Dima Mouhamed.

A projeção do documentário “Cinco câmaras quebradas”,  e o debate que se lhe seguiu, com Marta Alves, professora de cinema da ESE de Setúbal, encerrou o ciclo de sessões.

Aqui fazemos uma breve síntese destas duas últimas sessões da iniciativa.

A questão da Palestina é uma questão antiga ou mais recente?

A questão palestiniana é uma questão que vem “do fundo dos tempos” ou é mais recente? Esta “ordem” internacional dos dias de hoje, em que não há regras e é marcada pela lei do mais forte, será mesmo “uma caraterística do tempo que nós vivemos”?

Foi partindo de questões como esta, e numa perspetiva de complexificação, que Carlos Almeida, investigador integrado do Centro de História da Universidade de Lisboa e vice-presidente do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM), nos falou do passado e do processo que levou ao que hoje é designado como a questão palestiniana.

Longe de enraizar “numa espécie de inimizade congénita” entre o mundo muçulmano e o mundo “judaico-cristão” (como indica a mais antiga representação cartográfica conhecida, este território sempre foi historicamente conhecido como Palestina), a questão palestiniana surge na sequência da Primeira Guerra Mundial, com a declaração de Balfour (2 de novembro de 1917), que prometia a criação de um “National Home for the Jewish People”, tratando as pessoas que viviam de facto então na Palestina “como um negativo”, as “comunidades não judaicas”, embora reconhecendo os seus direitos civis e religiosos. Mas não quaisquer direitos políticos.

Com a constituição da Sociedade das Nações, o território otomano é repartido consoante as potências vencedoras e o projeto sionista (favorecido pela Inglaterra) adquire foros de direito internacional.

Nesta repartição da região pelas diferentes potências europeias, sob a forma de mandatos, à Inglaterra cabe administrar o território palestiniano. Mas “ao contrário de todos os outros mandatos que atribuem ao mandatário a responsabilidade administrar o território, até ao momento em que o povo nativo daquele território possa assumir a autodeterminação e governar-se de forma soberana no seu território, no caso do Mandato Britânico, as pessoas que vivem na Palestina são simplesmente ignoradas”. O que está em causa foi, desde o início a constituição de “um projeto de exclusividade”.

O que acontece hoje em Gaza é uma versão mais acelerada, com a violência que os meios de destruição hoje ao alcance dos exércitos permitem, de um processo que se iniciou lá no início do século XX, um processo de expulsão, colonização e limpeza étnica da Palestina”, considerou Carlos Almeida.

Hoje o próprio exército de Israel reconhece como verdadeiros o número de vítimas mortais deste genocídio indicados pelas Nações Unidas e pelas organizações palestinianas. Cerca de 70 mil. Embora, na verdade, ainda não se saiba quantas pessoas morreram (e continuam a morrer) desde 7 de outubro de 2023. Entretanto, a resolução 2803 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, “transforma o plano dos 20 pontos do presidente norte-americano em resolução das Nações Unidas”.

Perspetivas? Tentando “olhar para diante”, Carlos Almeida lembra que, se “há uma coisa de que a história mostra inúmeros exemplos e que a resistência nacional do povo palestino tem provado a saciedade, é que há sempre um caminho, é que se descobre sempre um caminho”. 

“Uma palavra pelo passado, duas pelo presente e três pelo futuro”

Dima Mouhamed, luso-palestiniana, investigadora e professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, começou a sua intervenção afirmando que ia desenvolvê-la com “uma palavra pelo passado, duas pelo presente e três pelo futuro”.

A palavra pelo passado foi o sionismo.

O sionismo, sublinhou,  “não é só uma ideologia política, normal, como todas as outras ideologias, é uma ideologia racista, uma ideologia colonial. O sionismo, no fundo, é um projeto colonial de substituição. Um colonialismo que visa o apagamento do povo colonizado”. É um projeto que “visa apagar a Palestina, apagar a cultura, através de massacres, mas não só, através de leis que fazem com que a vida na Palestina para os palestinianos seja quase impossível, e também através de esforços que são feitos fora da Palestina. Esta persistência na proclamada exclusiva representação dos judeus no mundo é uma das maneiras de tentar acabar com a ideia da Palestina”.

Para o presente destacou duas dimensões: a cumplicidade e o escolasticídio.

A cumplicidade “dos governos ocidentais, mas não só. A cumplicidade é uma coisa muito complexa”, considerou. A ideia principal é que “Israel não poderia ter feito o que tem vindo a fazer sem a cumplicidade do mundo. Infelizmente, isto está a acontecer com o apoio explícito, ativo, de vários, mas também com o silêncio de muitos”.

Falando do escolasticídio, afirmou que “uma das ferramentas mais importantes que Israel tem utilizado nas últimas décadas é o ataque contra o sistema de educação na Palestina”. Foi “óbvio que os ataques contra as escolas e as universidades palestinianas na Faixa de Gaza não foi por acaso. Na verdade, as universidades foram destruídas e as escolas também. E, além disso, começou um padrão que se vê todos os dias agora, ataques sistemáticos contra os académicos palestinianos”.

Para o futuro, escolheu três palavras: o boicote, o desinvestimento e as sanções.

São três palavras “que fazem parte de uma campanha que já existe há 20 anos”. E esta campanha “foi inspirada por uma outra campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra o regime de apartheid na África do Sul. Começou em 1958 e demorou quase 40 anos para, basicamente, fazer cair o apartheid, mas conseguiu”.

A campanha, que começou há 20 anos, “conseguiu vários sucessos, várias vitórias, mas está a ganhar força agora. Então, aqui eu apelo a todos vocês para aderir a esta campanha”, terminou.

“O Milagre construímos todos juntos”

Uma questão levantada por António Avelãs, foi central no debate: “Estão a surgir em relação ao futuro dois caminhos que têm sido apresentados. Duas perspetivas que são diferentes e sobre as quais gostaria de vos ouvir. Porque se, por um lado, se aposta ou se defende como solução a existência de dois Estados, por outro lado, há quem comece a sustentar que não é viável a existência de dois Estados e que o que seria preferível seria um Estado único. Gostava de vos ouvir sobre isto”.

Dima Mouhamed foi a primeira a responder. “Eu concordo totalmente que não é viável falar de dois Estados. Israel já matou a possibilidade de dois Estados, porque enquanto se falava dos dois Estados, Israel continuou a colonização da Cisjordânia, continuou a construir colonatos, a expandir os colonatos que existem e a recusar evacuar estes colonatos. Além disso, eu acho que a solução de um Estado é a única solução que faz sentido para o futuro, a única solução sustentável. É um Estado em que todas as pessoas são iguais, em que não há supremacia religiosa. Porque o Estado sionista é baseado na ideia de que alguma religião tem mais mérito, algumas pessoas de alguma religião têm mais direitos. Isto também não é sustentável, não faz parte destes tempos. Na África do Sul também não foram criados dois Estados. A única coisa que há que fazer é ter um Estado onde todos os cidadãos são iguais”.

“O meu papel é de apoiante”, afirmou Carlos Almeida. “E, como apoiante da causa palestina, eu acompanho este debate, mas acho que este debate diz respeito aos palestinos. São os palestinos que têm de decidir para onde querem caminhar”.

“A conclusão que se poderia tirar da minha intervenção é a de que a solução de dois Estados foi produzida por um arranjo internacional e os arranjos internacionais resultam da força”, considerou. Assinalando, entretanto, que “foi a luta dos povos, o contexto internacional, que tornou possível um património de direito internacional que, inequivocamente, ainda defende, protege os direitos políticos do povo palestiniano”.  

A terminar, Carlos Almeida salientou uma ideia referida por uma das intervenientes no debate. “O Milagre construímos todos juntos”. Com “o nosso esforço, com o nosso trabalho, com as pequenas iniciativas e com as grandes iniciativas é assim que nós construímos o Milagre. O Milagre da luta e da resistência e da construção de caminhos novos. Agora, essa luta constrói-se com solidariedade, mas também com esclarecimento”.

Pessoas como nós

“Cinco Câmaras Quebradas”[i], documentário franco-palestiniano, de 2012, de Emad Burnat e Guy Davidi, que recebeu uma nomeação ao Óscar de melhor documentário de longa-metragem, é uma história verídica e, por isso mesmo, particularmente impactante.

Este filme documental que, como referiu Marta Alves, “não nasceu como tal”, tem, como ponto de partida, uma história muito simples. Emad, o realizador, compra uma câmara para filmar o nascimento do filho mais novo  (2005) e fazer um registo do seu crescimento. E esse registo torna-se “um instrumento fundamental naquele momento que ele está a viver, de transformação da sua pequena aldeia, do sítio onde ele vive e para dar sentido a esta loucura, que  é o nascimento, o crescimento dos colonatos, o ataque completamente irracional e arbitrário dos colonos israelitas”, o erguer de um muro que corta as terras da Cisjordânia, espoliando assim os camponeses palestinianos.

Emad “vai-nos contar esta história a partir das cinco câmaras, que se vão partindo à medida que ele vai fazendo este registo”. Um registo em que se cruzam a brutal realidade imposta aos palestinianos e a sua capacidade de multiforme resistência – em que se afirma a necessidade de viver, mesmo a alegria, a imaginação -  e um testemunho vivido de “como é que uma criança que nasce naquele contexto e que na história deste documentário vai até aos 5 anos, cresce perante esta realidade” (as primeiras palavras que diz “teriam a ver com a guerra, teriam a ver com a violência teriam a ver com a morte”).

Esta  uma brevíssima síntese do filme.

Mas, através desta história, ele é, sobretudo, uma afirmação viva e tocante, de humanidade partilhada. De que aquelas famílias, aquelas crianças, são gente como nós. “Um povo, uma cultura, um modo de vida, uma população, pessoas, seres humanos”. Não “os bárbaros que querem destruir a civilização”. Não há “o outro”.

E este filme, como sublinhou Marta Alves, “tem esse poder imenso de nos fazer recordar, de nos fazer perceber que este é um problema real, que está longe de acabar e que se agudizou de uma forma absolutamente inaceitável”.

[i] https://www.youtube.com/watch?v=5Ja0S9YlRys

Texto original publicado no Escola/Informação  n.º 314 | março/abril 2026