Gil Vicente, um agrupamento multicultural
Crianças de todas as nacionalidades, todas misturadas
Lígia Calapez e Sofia Vilarigues | Jornalistas
Adriana Guerreiro, diretora do agrupamento Gil Vicente, Miguel Simões, responsável pelo projeto Código Postal, Adelaide Rodrigues, professora diretamente envolvida no projeto, Carla Alves, professora bibliotecária e coordenadora do TEIP. Quatro vozes, quatro ângulos diferentes de abordar uma visão comum, uma perspetiva de multiculturalidade, numa escola em que se juntam 64 nacionalidades.
“Os braços abertos que temos para todos”
“Independentemente do sítio onde eles nascem, acreditamos que merecem todos uma escola de qualidade, uma educação de qualidade, e é isso que tentamos todos os dias”, diz-nos Adriana Guerreiro, diretora de um agrupamento onde coexistem 64 nacionalidades.
Ao nível do acolhimento há várias estratégias, “para além dos braços abertos que temos para todos”.
Há o Guia de Acolhimento, que está disponível no site do agrupamento e traduzido em várias línguas. “Pareceu-nos que tudo aquilo que era lógico para nós, não tinha que ser lógico para os outros.” É “muito prático, o dia a dia nas escolas”. Com temas como “Quem tem direito a manuais escolares gratuitos?”, ou “Que refeições podem ser tomadas na escola?” ou ainda “O que é o cartão escolar?”. Na tradução tiveram parcerias com a Associação NIALP e a Fundação Aga Khan.
Depois “temos os nossos relógios na zona do bar”. Tudo começou porque Adriana, quando vai ao estrangeiro, não consegue “estar lá sem saber que horas são cá”. E então, “aquilo fazia-me muita impressão, os miúdos estarem aí e não saberem que horas eram no país deles”. Pelo que “cravejámos a parede do bar de relógios, que têm todos os fusos horários das nacionalidades dos nossos alunos”. Da primeira vez que mudou a hora, “chamámos os miúdos para eles mudarem a hora”. Isso “também foi espetacular, eles todos em cima das cadeiras, a fazer contas, etc.”.
“Colocámos as bandeiras no átrio da escola. A bandeira de Portugal e, depois, as bandeiras de todas as nacionalidades”. Estão “sempre a aumentar!” E há uma pessoa responsável. “A nossa Helena Gomes que tem uma missão, entre outras, - mas esta ela abraça com muito carinho -, que é atualizar sempre o quadro das bandeiras.”
Em relação “à integração, temos o Sou Gil”. Partiu do Despacho n.º 2044/2022, que estabelece normas destinadas a garantir o apoio aos alunos cuja língua materna não é o português. Prevê que “os alunos que estão no país há menos de 6 meses e que estão integrados na escola pública possam ser retirados de algumas aulas por semana do seu currículo, desde o primeiro ciclo até o décimo segundo, e que esses minutos semanais sejam utilizados na imersão linguística e na aprendizagem da língua portuguesa e, também, da parte cultural”. No “mundo real, é melhor que nada, porém, não é suficiente”. “Eu acho que alguma diferença fará em todos. Mas seria preciso mais tempo, mais recursos, algo mais estruturado”.
Adriana Guerreiro destacou ainda, no decorrer da conversa, um “encontro de mulheres”, realizado o ano passado. Foi “uma parceria entre as mediadoras e a mentora do Teach for Portugal”. Era um “encontro de meninas, e era sobre o empoderamento feminino e a importância que a menstruação tem nesta questão do feminino e do ser mulher”. Para as alunas portuguesas “isto é visto de uma forma que já de si é bonita, que pode ser interessante, que pode ser engraçada, para desmistificar uma série de preconceitos. Noutras nacionalidades é mesmo importante falar sobre isto”. E, portanto, “foi um encontro que quanto a mim foi giríssimo. Foi no ginásio, aquilo estava cheio de velinhas, elas sentaram-se em roda, foi assim uma coisa muito bem feita. E acho que foi muito importante para todas as meninas e mulheres que participaram. De certa maneira, acredito que não vai mudar o mundo, mas mudou um bocadinho estas vidas e a forma como se veem a elas próprias. E se a escola puder contribuir para isso, acho que estamos a fazer um bom trabalho”.
Um projeto micro que teve uma proporção macro
A ideia do projeto Código Postal – relatada em conversa cruzada entre Miguel Simões e Adelaide Rodrigues - tem uma pré-história. Surgiu de um encontro ocasional, entre os dois professores, no Festival Todos[1], um festival de teatro de rua, performance, dança, música, de inclusão das comunidades migrantes na cidade de Lisboa. “E se nós trabalhássemos a questão dos alunos estrangeiros no Plano Nacional de Artes?”
Assim se passou a ideia para a escola. Assumida como uma iniciativa no âmbito do Plano Cultural da Escola, o objetivo era envolver ao alunos e alunas migrantes “num projeto que pudesse, de alguma forma, não só dar-lhes visibilidade, mas também proporcionar que eles se sentissem mais incluídos nas aprendizagens e na escola”.
Era impossível envolver todos os alunos. Nesse ano, a professora Adelaide Rodrigues, estava com um grupo de Português Língua Não Materna, do 2º ciclo. “Era o ideal”.
Havia ainda a vontade de “convidar investigadores a participar”. O projeto 2024-2029 do Plano Nacional das Artes prevê a inclusão da Academia. O Código Postal contou, assim, com a colaboração de especialistas em cinema e educação da Universidade Nova de Lisboa e viria também a ter o apoio do Museu Nacional de Arte Contemporânea – MNAC.
Estavam criadas as condições para se avançar.
Na prática, como se desenvolveu o trabalho? A partir do grupo de alunos que se disponibilizou a participar (treze alunos migrantes) e, naturalmente, com a autorização dos encarregados de educação, alguns dos alunos, que pudessem, nessa hora, sair da aula, “eram desafiados a filmar a partir de um determinado tema”, acompanhados por um grupo de investigadores que trabalha em cinema com crianças.
Tudo isto foi apresentado aos alunos. “Foram eles que quiseram participar”. Com os encarregados de educação houve uma reunião prévia a explicar a proposta. “Queríamos também que os pais se sentissem parte do projeto.”
As propostas de exercícios, apresentadas aos alunos, “aconteciam de acordo com o meio envolvente, com a atmosfera, com a meteorologia”. Por exemplo: “Um dia estava a chover. E então os meninos iam só filmar chuva e água. Ou seja, olhar para a escola, para as imagens, para situações onde pudessem retratar só a água e a chuva. Na semana seguinte, vento. Então só filmavam situações onde a imagem conseguisse representar o vento”.
“Tínhamos conversas de partilha de todo o processo entre eles.” E tudo foi também partilhado, trabalhado, com a comunidade escolar.
De todo este trabalho resultou uma exposição, no Museu Nacional de Arte Contemporânea. Aberta a toda a gente. Um dispositivo que compreendia quatro proposta. Incluindo um mosaico que tinha 36 vídeos a passar em loop, “que, no fundo, era a síntese do trabalho”.
Uma exposição que gerou visibilidade e um profundo, sentido, entusiasmo entre os alunos envolvidos.
SinopseO projeto Código Postal é o resultado do olhar e do movimento de treze alunos migrantes, meninas e meninos, do 2º ciclo do ensino básico, na escola que habitam. A captação cinematográfica serviu de recurso para esse testemunho e prática conjunta. O projeto visou contribuir para a integração dos alunos migrantes e para o seu empoderamento, dando-lhes visibilidade no interior e no exterior da comunidade educativa. Salienta-se a missão da escola como espaço de inclusão, de criatividade e de relacionamento intercultural, recorrendo, neste caso, às artes como ferramenta de transformação social. A equipa envolvida contou com especialistas em cinema, comunicação, artes performativas e educação, incluindo professores universitários, cineastas, alunos de doutoramento e de mestrado e investigadores ligados à Universidade Nova de Lisboa. São eles o Diogo Rodrigues, o Francisco Madureira, o João Leiria, o Pedro Florêncio, o Tomás Robalo Maia e o Miguel Simões, todos com investigações académicas em curso e experiência na interseção do audiovisual e da arte performativa com a educação. A recolha de imagens, na escola, foi feita a partir das aulas de PLNM - Português Língua Não Materna, da professora Maria Adelaide Rodrigues, que se disponibilizou para aceitar a equipa de filmagens e a integrar o projeto com os seus alunos e as suas alunas. Com a participação da Aarushi, do Abdul, do Aftab, do Chichibe, da Janvi, do Jead, da Lisa, da Maria, da Mariam, do Minhajul, do Pratyush, do Sami e do Yanish. Tipologia: Instalação áudio visual |
Biblioteca – a alma e o coração da escola
“Esta biblioteca é a alma e o coração da escola”. Foi assim que Carla Alves iniciou a síntese que tentou fazer sobre as – múltiplas – atividades desenvolvidas nas bibliotecas do agrupamento.
Centrando-nos no espaço da biblioteca da sede do agrupamento, onde se desenrolou a nossa conversa, Carla Alves começou “pelo início”. “Uma das diretrizes da rede de bibliotecas escolares é precisamente a interculturalidade e o humanismo”, e são esses os princípios que “não desistimos de tentar implementar na escola”.
Nessa perspetiva, há uma série de projetos que têm como principal objetivo trazer os alunos “para dentro da biblioteca”. Como?
O primeiro ponto é garantir que os miúdos vão à biblioteca. Não necessariamente para ler. “Temos vários jogos, temos um projeto que se chama Páginas de Filmes - passamos filmes cujos livros existem na biblioteca, para tentar fazer a ponte. Uma comunidade crescente a jogar xadrez. Oferecemos toda essa panóplia de diversas atividades. O facto de eles saberem que não precisam de ir à biblioteca para ler, aproxima muito qualquer aluno da biblioteca.”
O primeiro passo é, assim, “pô-los cá dentro através do lado lúdico”.
Depois, vêm os projetos de promoção de leitura. Há uma estante de livros dirigidos a quem está a aprender português. E há o “cartão de leitor”, que possibilita comprarem um livro. Cinco cartões distribuídos anualmente e a atribuição de um prémio de “melhor leitor”. “Não é só ir lá requisitar o livro e pôr o carimbo” – salienta Carla Alves. “Eles têm de preencher uma ficha de leitura. E quanto mais pessoal for a interpretação que dão do livro, mais é pontuado. E o que é muito engraçado verificar é que eles vão evoluindo no tipo de livros que leem”. Tudo isso é valorizado.
No primeiro ciclo, a biblioteca desenvolve uma atividade específica: “Contos do Mundo”, em que vão-se lendo contos de várias zonas do mundo, para conhecer um pouco das diferentes culturas. “Alguns meninos trazem os contos de casa, outros fazem pesquisa pessoal” – sempre com o objetivo de “mostrar o mais mundo possível”.
A biblioteca promove, ainda, os alunos voluntários, para “ajudar outros na biblioteca”. Tudo é feito, sempre, “com a colaboração dos miúdos”.
E “uma das coisas que eu mais gosto de observar na biblioteca é vê-los nas mesas a trabalhar em conjunto, meninos de todas as nacionalidades, uns jogam, outros trabalham, outros estão a estudar, outros estão só a conversar, mas todos misturados”.
A biblioteca participa ainda em diversos projetos conjuntos. A Semana dos Afetos, uma atividade desenvolvida com o Programa de Educação para a Saúde, com o tema “Muito mais é o que nos une”. Ou o mural “Em Cada Rosto Igualdade”, um conjunto de fotografias “de todas as pessoas que quiseram ser fotografadas, aqui na escola”. Uma exposição que - por vontade de todos - se mantém há 2 anos (ano em que era esse o lema da escola, no 25 de Abril), e vai sendo enriquecida.
Em 2025, o “Ler sem Barreiras”, uma iniciativa de escola da Gil Vicente, foi o primeiro projeto de uma escola pública a vencer o Prémio Sonae Educação[2]. É um projeto para levar a leitura a crianças não leitoras, que, no fundo, “consiste em os professores fazerem gravações áudio de pequenos textos, de acordo com o nível das crianças que estão na educação especial ou dos estrangeiros”.
Um prémio dirigido a projetos que trabalhem a inclusão. Na Gil Vicente já se sonha com outros desenvolvimentos, novas propostas. Envolvendo, por exemplo, a área do teatro, os mediadores linguísticos.
[1] https://www.festivaltodos.com
[2] https://www.sonae.pt/pt/media/press-releases/premio-sonae-educacao-distingue-quatro-projetos-na-sua-3-edicao/#:~:text=%C2%B7%20Pela%20primeira%20vez%20em%20tr%C3%AAs%20edi%C3%A7%C3%B5es,Gil%20Vicente%2C%20CADin%2C%20Skoola%20e%20Associa%C3%A7%C3%A3o%20Topsail.
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 314 | março/abril 2026