Artigo:Entrevista com Conceição Matos e Domingos Abrantes

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«Há um trabalho de 50 anos de apagão da memória»

Entrevista com Conceição Matos e Domingos Abrantes, resistentes antifascistas [Lisboa, 31 de maio de 2024]

Em março, Conceição Matos e Domingos Abrantes, resistentes antifascistas, participaram numa conversa na sede do SPGL, por ocasião da apresentação do livro Elas estiveram nas prisões do fascismo (URAP), numa iniciativa promovida pelo Departamento de Aposentados. Nessa ocasião, foi feito um convite para uma entrevista que aqui se apresenta na íntegra e cujos excertos se partilharam na revista «Escola/Informação» n.º 308, de maio/junho 2024.

Manuel Guerra — Confesso ter hesitado sobre a forma como podíamos começar esta conversa, a qual uma vez mais agradeço, mas talvez porque seja forma de fazer jus ao problema central sobre o qual gostaria que conversássemos — o da memória e o da necessidade de lutar contra o esquecimento —, pensei recuar e começar por aqui: como era a vida de uma criança no fascismo, naturalmente tendo em conta as vossas vivências?

Domingos Abrantes — Esse é hoje um problema central, quando nós falamos da necessidade de resgatar a memória. Porque somos confrontados com uma situação real: há um apagão sobre a realidade do que foi o fascismo. Passaram 50 anos, os jovens nasceram já todos depois do 25 de Abril, os pais e a grande parte dos professores também. Portanto, isto passa a ser uma coisa da «pré-história». E essa pergunta tem muito interesse porque, quando nós vamos às escolas, uma das coisas que mostramos aos jovens é precisamente o que era o nosso quotidiano. É muito difícil para um jovem que nasceu em liberdade, que tem conquistas que eram impensáveis há 50 anos — basta ir às escolas, com cantinas, o próprio facto de poderem estar nas escolas. Ora, quando lhes mostramos uma fotografia com turmas inteiras descalças, é porque é difícil para os jovens de hoje entenderem. Eu ia para a escola descalço. Íamos para a escola, para a fábrica sem comer. As casas não tinham saneamento básico. Era uma realidade de dificuldades enormes. É fundamental perceberem o que é que se conquistou. E ainda que se possa perceber que, para um jovem de hoje, é difícil entender essa realidade de que estamos a falar — nasceram com estas conquistas —, se a gente não lhes explica… Por exemplo, quando os jovens chegavam à quarta classe e queriam continuar a estudar, os pais precisavam que eles fossem para a fábrica, não para a escola. Muitos destes jovens que hoje estão nas escolas, se fossem filhos de operários, não continuavam na escola. Era viver a miséria. O fascismo era miséria, como nos bairros operários ou no Alentejo em que a fome era uma realidade concreta. E, portanto, para miúdos que hoje têm escolas, com cantinas, que os pais têm um nível de vida que não era sonhável no nosso tempo, é o que os pode ajudar a perceber o que se conquistou e o que é preciso defender.

Conceição Matos — Houve uma vez que fomos a uma escola com miúdos dos 4 aos 6 anos. Era quase um infantário. E ficou na minha frente uma menina com 6 anos. E quando eu lhe mostrei as fotografias e os professores foram mostrar aos miúdos — fotografias de crianças descalças em duas escolas diferentes, uma do Norte e outra mais a Sul —, o que é que aconteceu? Aquela menina à minha frente, com 6 anos, começou: «Ah! Ah!». Preocupada, não queria acreditar que os meninos fossem para a escola descalços. E tivemos de explicar que realmente era assim, que eu própria fui para a escola descalça. Eu fui com 3 anos para o Barreiro. O meu pai era operário. Era o único a ganhar: primeiro para nove pessoas, depois morreram dois irmãos e ficámos cinco. Era só ele a ganhar. Portanto, estão a ver o que era a dificuldade. Eu tenho histórias… só para se ficar com uma ideia, a minha mãe costumava fazer umas sandes para o meu pai levar de noite — era operário na CUF, trabalhava sempre de turnos, precisamente para fazer face às dificuldades. E a minha mãe arranjava-lhe umas sandes, que não podia dar aos filhos, para o meu pai levar de noite. E, às vezes, os meus irmãos — nós éramos três raparigas e dois rapazes — iam comer as sandes do meu pai. Lembro-me muito bem da minha mãe dizer isto: «Ó filhos, vocês não façam isso, porque o vosso pai tem que comer de noite. E se ele não come, adoece. E não pode trabalhar. E vocês morrem de fome.»

Domingos Abrantes  No meu bairro, e era uma coisa generalizada, leite era coisa que não existia. Eu só bebi leite quando já era adulto. Fruta era coisa que não entrava nas casas. Era um quotidiano extremamente difícil. Eu vivia em Lisboa, a Conceição no Barreiro. Não eram zonas assim tão distantes, mas os níveis de vida eram baixíssimos nos meios operários… muitas das casas sem um mínimo de condições. Portanto, dizer a um miúdo, vocês têm electricidade, mas eu já era homem quando a eletricidade chegou à minha casa, na minha rua não havia uma única casa com água, com luz, com esgoto. Estamos a falar do Poço do Bispo [Lisboa], não estamos a falar da Guarda ou de qualquer outra cidade rural…

São mundos completamente diferentes! Agora, o problema é se estes jovens são educados na ideia de que isto foi o resultado da conquista da liberdade. Porque a vida de miséria era imposta, sobretudo, na base da supressão da liberdade. E porque é que não havia liberdade? Naturalmente, havia muitas razões, mas uma das razões é que a supressão da liberdade permitia níveis de exploração brutais. Não havia sindicatos, não havia direito à greve. Chamava-se a polícia quando se lutava. E, portanto, grandes fortunas foram constituídas à base da supressão da liberdade. Isto permitiu níveis de exploração e de intimidação que não seria possível com o quadro atual de liberdade.

Conceição Matos  Por exemplo, no Barreiro, a GNR e a PIDE interrogavam as pessoas na fábrica. Havia um posto da GNR mesmo na fábrica. Era terrível. Aquela terra era patrulhada de dia e noite com GNR a cavalo e a pé. Eu lembro-me de ver os acidentes na fábrica. Todos os dias ouviam-se ambulâncias, porque havia gente a ir para o hospital. Era realmente uma vida difícil, tão difícil que as pessoas não podem imaginar. Só podíamos ir até à 4.ª classe. Portanto, com muita pena minha, tanto eu, como os meus irmãos, só fizemos a 4.ª classe. Por muito que gostássemos, não conseguíamos ir mais além.

Manuel Guerra — E como era a escola do fascismo, no tempo em que puderam estar na escola?

Domingos Abrantes  A nossa experiência é uma experiência de instrução primária. Já quando trabalhava na fábrica, andei numa escola industrial noturna. O obscurantismo era uma das características do fascismo no ensino. Salazar tinha mais medo do ensino, da cultura, da instrução, do que o diabo da cruz. Basta ver os livros da instrução primária. No fundo, a «grande inspiração» do fascismo era limitar o mínimo dos conhecimentos. Mas havia exceções, professores que procuravam imprimir um ensino mais progressista, mas eram limitados quer pelos manuais e pelos programas, quer pela vigilância que havia sobre os professores. Muitos professores foram afastados do ensino. Era um ensino, digamos, de um baixo nível. Além de que se pintava Portugal cor-de-rosa, o que era uma falsidade. Basta ver aqueles livros escolares em que aparece a beleza das famílias, tudo cor-de-rosa. Era uma falsificação da realidade. Havia depois uma outra coisa nos bairros operários e sobretudo nos bairros operários de influência progressista e do PCP. Havia um trabalho paralelo: nas coletividades, que tinham bibliotecas, que compensavam, de forma limitada, esse nível de ensino. Mas, de forma geral, era um regime em que se procurava limitar o avanço e os conhecimentos.

Para já havia um problema que era a separação entre rapazes e raparigas. Hoje os jovens até ficam um bocado arregalados quando se diz que, onde havia rapazes, não podia haver raparigas. Depois, toda a educação, mas sobretudo pior para as raparigas, assentava na moral fascista de incutir a ideia da mulher doméstica, obediente, e toda a estrutura era preparada para essa mentalidade. Além da própria violência. Ainda me lembro das reguadas. Batia-se nos miúdos. «Põe lá as mãos assim». Reguada! Se o comportamento não era como as pessoas pensavam. Havia, aliás, coisas de uma infâmia… eu lembro-me, por exemplo, na minha escola, que uma das coisas que se fazia quando se dava erros, era pôr orelhas de burro. Exibir os miúdos, aos outros miúdos, com orelhas de burro. Isto mostra logo o nível.

Depois, na escola industrial, tirando as aulas de moral e os padres, havia já, além dos professores conservadores e fascistas, alguns professores mais abertos que procuravam ajudar os jovens, sobretudo a caminhar por si. Claro, o estudo à noite era uma coisa extremamente difícil. Para já, a grande parte dos jovens nem sequer chegava ao fim. Eu saía de casa às sete da manhã para o trabalho. Mas havia jovens que, se vivessem em Santa Iria, ou Sacavém, ou Vila Franca, saíam de casa às seis da manhã. Depois de um dia de trabalho, eu ia a casa buscar a maleta para a escola e tudo sempre a pé. Às onze da noite regressava. Nem ficava sequer tempo para estudar. Além de que um miúdo, às sete da manhã ia outra vez para o trabalho. Era preciso fazer um esforço gigantesco para estudar. A grande parte ficava pelo caminho.

Conceição Matos  O que mais me marcou foi o problema das reguadas. Aquilo não havia liberdade para coisa nenhuma. Lembro-me de fazer assim [levantando as mãos]. Vinha a professora com a régua. E depois, ao bater, a pessoa fazia assim [levantando as mãos]. Dava uma, depois dava a outra. Era constantemente a bater. Outra coisa ainda era pôr-nos encostados à parede de costas, com as mãos na parede, e ficar ali tempos sem fim. Outras vezes, até nas janelas, para que os outros vissem... Por exemplo, tenho uma irmã que pediu para ir à casa de banho. Não deixaram. Claro que ela saiu da aula e começou a fazer as necessidades no chão. E as miúdas todas, atrás dela, começaram a provocá-la. E ela lá foi até casa toda suja. Porque não deixaram. Havia castigos por tudo e por nada. Era também obrigatório a pessoa ir à catequese. Ir à missa era obrigatório.

Manuel Guerra — Desculpem voltar a isto, quando para vós é mais do que sentido e vivido, mas embora já tivesse ouvido relatos da violência das duas vertentes — quer do que era a escola, quer do que ainda não falámos [a prisão, a tortura] — , estava aqui a pensar, com os vossos relatos, que era todo um «sistema» que desde criança já assentava na violência…

Domingos Abrantes  A violência era a regra geral em que vivia o fascismo! Aliás, havia um princípio que era: o que não fosse expressamente autorizado era proibido. Ora bem, isto levava às maiores arbitrariedades. Porque a polícia é que sabia da própria vida quotidiana, do dia-a-dia. A Conceição tem um irmão que foi multado na Rua da Prata porque atravessou a rua na diagonal. Não havia nada escrito que era obrigatório não atravessar em diagonal, mas como não estava escrito, a polícia decidiu que ele não podia atravessar em diagonal. E foi espancado por isso, porque não quis pagar a multa. Aliás, até não a podia pagar. Se pagasse a multa, não ia para o Barreiro, não tinha dinheiro para o barco. Era uma sociedade de violência. Violência de organização. Mesmo no próprio trabalho, sobretudo sobre os miúdos, com algumas exceções. A repressão recaía sobre os mestres e os mestres muitas vezes descarregavam a ira nos miúdos. Era uma vida muito obscurantista e opressiva.

Conceição Matos  Havia muita repressão. Por exemplo, tenho uma irmã que foi levada à polícia só porque, quando assaltaram a casa da minha mãe, para levar o meu irmão, encontraram na cama, no quarto dela, um papel. Logo levaram a miúda para a polícia que havia dentro da própria fábrica. O fascismo era assim. E hoje põe-se em questão o fascismo. Nós não podemos esquecer que o fascismo existiu e todas as consequências que foram criadas.

Manuel Guerra — Como é que, mesmo perante tudo o que estão a descrever, uma pessoa se pôde formar e se pôde educar nesse contexto? E na vossa experiência, como é que a vossa formação, nomeadamente política, se dá?

Conceição Matos  As crianças começavam a trabalhar muito cedo. Portanto, saíam da escola e iam trabalhar. Eu fui trabalhar com 10 anos. Trabalhei em vários sítios. Primeiro na costura, depois também numa fábrica de cortiça. Comecei a trabalhar muito cedo, assim como os meus irmãos. Trabalhámos muito cedo, todos nós. E era uma vida mesmo muito complicada.

Domingos Abrantes  Nós também tivemos sorte, chamemos-lhe assim… Porque vivíamos em bairros operários com consciência política. E, sobretudo, bairros operários que tinham um «culto da cultura». Foi uma coisa que, infelizmente, se foi perdendo. Mas havia no movimento operário a ideia de que os trabalhadores deviam preparar-se para discutir com os seus inimigos. Havia malta do Poço do Bispo que ia ao Barreiro, por exemplo, buscar livros para ler. Todas aquelas coletividades tinham grandes bibliotecas. Eu, por exemplo — claro que tinha o meu irmão mais velho e ligado ao Partido —, era daquela malta que ia à biblioteca buscar livros para ler. Comecei a ler também muito jovem, mas sobretudo por essa influência caseira e do Oriental de Lisboa, e não tanto da escola. O Oriental criou mesmo uma Secção Cultural que acabou por ser assaltada pela polícia. Um dia, a polícia foi lá. Eu vinha a pé da escola noturna, cheguei ao Poço do Bispo e só via carrinhas da polícia por todo o lado. Tinham assaltado, fechado a secção cultural, fechado a biblioteca que tinha um trabalho de formação — pequenas atividades culturais, peças de teatro amador, até coisas para as raparigas. Para a época era um escândalo. Depois, sobretudo, através do MUD juvenil, que era um movimento com operários, camponeses e estudantes, onde havia esta mescla de partilha democrática de conhecimentos. Mas, na generalidade, não era assim. Ainda há dias presenciei uma coisa muito curiosa: encontrei uma pessoa no Barreiro, um velho militante, que ia com um livro debaixo do braço. E disse-lhe: «Eh camarada, isto é aprender até ao fim da vida.» É uma coisa muito curiosa. E se formos ver, encontramos muitos operários de um nível… eu costumo dizer que o Dias Lourenço era um intelectual operário. Tinham níveis de conhecimento... Mas isto era muito restrito aos meios operários. Toda a Margem Sul, a Cova da Piedade, o Seixal, o Barreiro, eram centros de difusão cultural.

Manuel Guerra — Lembram-se de alguns desses livros formativos, dos primeiros que leram, e que de alguma maneira fizeram ver as coisas de maneira diferente?

Domingos Abrantes  Todos nós fomos marcados pela Mãe, de Gorki. A pessoa que me começou a dar livros era uma pessoa com alguma sensatez. Começou por dar-me os livros do Eça e, sobretudo, do Júlio Dinis, a literatura portuguesa. Na minha vida houve algumas paixões. Uma das paixões foi o Eça. Devorava livros do Eça. E depois, mais tarde, talvez a minha grande paixão foi o Tolstói. O Guerra e Paz. Mas resulta não pela influência da escola, mas pela influência do bairro, dos amigos, do trabalho. O que é uma coisa muito diferente de hoje. A escola não tinha a função de educar as pessoas para pensar, para serem autónomas do ponto de vista do pensamento, bem pelo contrário. Há uma frase do Salazar que exprime com toda a clareza o pensamento. Ele considerava a informação, a cultura, os livros, etc., como um «alimento» e que, como qualquer alimento, dizia ele, devem ser vigiados. Esta ideia de alimento é uma ideia muito curiosa para um fascista. É a ideia de que o conhecimento, na cabeça dele, levava à perturbação das pessoas. Quando estive em Peniche, houve um diretor que proibiu os livros, nesta linha de pensamento fascista. Dizia que nós estávamos presos, porque os livros nos deram cabo da cabeça. Isto mostra bem, digamos, o conteúdo… uma pessoa que pensa que os livros é que dão cabo da cabeça acho que é uma síntese perfeita do pensamento fascista.

Conceição Matos  Além da Mãe, do Máximo Gorki, havia também o Assim Foi Temperado o Aço.

Manuel Guerra — A Conceição também já tem dado nota, quando esteve presa e foi sujeita à tortura…

Conceição Matos  O Arco-Íris, da Wanda Wasilewska. Eu agarrei-me a esse livro… Há uma altura que me despem e eu tento cobrir-me na mesa. Estava entre homens. Comecei a olhar. E pensei assim: «Não, eu não posso fraquejar. Tenho que ter força e encarar!». E decidi encará-los e lembrei-me desse livro. E então comecei a gritar. «Um, dois, três… canalhas… vocês são uns monstros, uns bandidos.» Respondi isto, precisamente para pararem com as torturas. Pensava no livro para me agarrar à força. No livro há uma mulher que vai com um filho nos braços e tem as baionetas nas costas. E ela resiste.

Domingos Abrantes  Houve também uma coisa fantástica, que foi a coleção Cosmos. Um trabalho cultural notável. Cada livro era muito barato. É talvez das coisas mais estimulantes na ligação, no papel dos intelectuais na formação das pessoas, sobretudo dos trabalhadores. Eram cientistas que trabalhavam de borla. Não ganhavam nada com aquilo. Eram livros de divulgação. Abrangia as áreas mais diversas da Ciência, da Literatura, do Conhecimento. Abrangia um público muito diversificado. E isso teve um papel fantástico até pela regularidade. Acabaram por sair dezenas e dezenas de exemplares. Que ajudaram a formar muita gente. E há algo mais. Nesses dias, lia-se à luz do petróleo. É hoje uma coisa muito difícil de imaginar. Não havia eletricidade na minha casa. Já eu era homem… Aliás, já estava preso quando a minha mãe teve eletricidade em casa.

Manuel Guerra — Gostava ainda de perguntar ao Domingos sobre o Mestre referido na conversa no SPGL [20 de março de 2024] e que era diferente dos outros…

Domingos Abrantes  Os mestres, por vezes, tratavam mal os miúdos. Faziam patifarias. Por exemplo, mandar os miúdos lavar o carvão até ficar branco. Riam-se a ver esfregar o carvão. Divertiam-se. Fui trabalhar tinha 11 anos. Mas houve um mestre que nunca mais esqueci na vida — depois, mais tarde, vim a saber que era comunista, mas naquela altura não —, porque era muito amigo dos miúdos. Tinha a preocupação de formar os miúdos. Não era só do ponto de vista moral, político, era do ponto de vista profissional. Era uma pessoa que tinha gosto em ensinar os miúdos. Era um mestre no sentido maior do termo. Perdia muito tempo a ensinar — a maior parte deixava a malta entregue a si próprio.

Mas ele também fazia política. Naquela altura, como havia os «bufos» e a vigilância, era hábito os trabalhadores dizerem assim: «Não percebo nada de política, a minha política é o trabalho» — para o caso de estar ali um «bufo». E este não fugia à regra, mas dizia mais qualquer coisa… Dizia aos miúdos assim: «Eu não sei nada de política, não sei o que é o comunismo, mas se os capitalistas não gostam é porque talvez não seja bom para eles. Se não é bom para eles, é capaz de ser bom para a gente.» E esta coisa primária levava a uma interrogação legítima. Depois, a conclusão, cada um tirava, não é? Mas ele deixava a interrogação e, parecendo que não, punha a miudagem a pensar.

Manuel Guerra — Depreendo das vossas palavras que, mesmo depois de todas as atrocidades que viveram, continuaram sempre a ler, a cultivar-se, a formar-se…

Conceição Matos  Por exemplo, na prisão, muitas pessoas eram analfabetas. E ensinávamos umas às outras. Até do jornal. Mas muita gente era analfabeta. E, portanto, o dever da pessoa que sabe qualquer coisa é ajudar o outro.

Domingos Abrantes  A atividade política implicava, pelo menos na grande parte da juventude, a formação, a leitura. Já era jovem, já estava na clandestinidade, quando ia para casa, passava no café para estar noites inteiras a ler. Era uma paixão. Porque considerávamos a leitura, a formação, como uma tarefa. A cadeia, depois, foi uma universidade, porque muitos jovens, muitos camaradas, aprenderam a ler na cadeia. Houve camaradas que aprenderam a ler pelo Avante! A vida sem livros era uma desgraça.  Até posso contar uma história muito curiosa. Um dia, estava em Peniche um capador. E estava connosco um matemático, um grande cientista, físico. E era um apaixonado por Matemática e começou a ensinar o capador. E descobriu que o capador era um talento. E incentivou-o a estudar e ele, já com uma certa idade, ainda se formou em Matemática, na Faculdade de Ciências.

Manuel Guerra — No fundo, a resistência também foi sempre uma luta pela formação, pelo progresso, pela cultura.

Domingos Abrantes  A luta da resistência é inseparável da luta pela cultura. Isso infelizmente hoje perdeu-se um pouco, mas faça-se justiça que houve muitos intelectuais — o que há de melhor na Música, na Literatura, na Pintura — que se ligaram à classe operária, aos trabalhadores. O caso do neo-realismo é um exemplo. Eles aprenderam com o mundo do trabalho e o mundo do trabalho ganhou muito no contacto com esses intelectuais.

A luta contra o fascismo, a resistência, a cultura, é uma parte integrante da luta contra o fascismo. Não é só a reivindicação de melhores salários. Basta ver as grandes figuras da intelectualidade que foram perseguidas, e alguns até perderam a própria vida, que se dedicaram à luta. Mas esta simbiose de intelectuais com trabalhadores, pelo mesmo objectivo… podemos até dizer que muitos intelectuais aprenderam da própria vida no contacto com o mundo do trabalho, e vice-versa. Isso, infelizmente, hoje perdeu-se um pouco. Há um certo distanciamento, mas é minha convicção que as grandes figuras da intelectualidade estarão sempre ao lado dos trabalhadores.

Manuel Guerra — Têm feito um trabalho incansável de ida às escolas, diria com tantos anos como a Revolução tem. Neste momento, enquanto resistentes antifascistas que são, com tudo o que viveram, como é que sentem que a memória está a ser, ou não, trabalhada?

Domingos Abrantes  Temos uma experiência de quase 50 anos. E uma das conclusões que se vai tirando é que vai ficando cada vez mais distante. E mais distante porque os anos vão passando, mas também porque há um trabalho de 50 anos, digamos assim, de apagão da memória. Basta ir aos manuais escolares a seguir ao 25 de Abril e hoje. A palavra «fascismo» desapareceu dos manuais. É só «Estado Novo». Já tive várias diligências junto de governantes. Acho que é um crime o trabalho da Educação não assumir como uma tarefa a formação democrática das jovens gerações. Não existe como tarefa e como disciplina trabalhar o que foi o fascismo. E isso é um crime que se paga caro. Lembro que este ano, em 27 de abril, foi inaugurado um Museu [Museu Nacional Resistência e Liberdade], mas a decisão de criar esse museu foi tomada em 1976. Foi preciso quase meio século, para além dos perigos… que esteve quase a ser vendido para um hotel. Isto não é um acaso. É realidade. E deliberado.

Agora, o que me parece é que é uma coisa gratificante, este trabalho de formar jovens. E muitos deles, e até os próprios professores, desconhecem a realidade. Ao princípio, ainda nos apareciam uns miúdos que falavam de um pai, de um avô…

Conceição Matos  A maioria dos pais e dos próprios professores nasceram depois do 25 de Abril.

Domingos Abrantes  Este ano é um ano particular. Há um nível de comemorações gigantesco. É claro que é muito desigual, até pelos meios que as escolas têm. Houve escolas com programas gigantescos, e outras… Mas é justo dizer que as comemorações dos 50 anos abrangeram e mobilizaram muitas escolas. O problema é saber se isto morre aqui. E este trabalho assenta não tanto na escola, mas nalguns professores. Da experiência que temos é um trabalho da «carolice» de alguns professores. Portanto, não é uma coisa assumida pela escola. E vai-se levantando um problema, que é o de alguns alunos não acreditarem. Já houve um miúdo que me perguntou se aquilo que eu estava a dizer não era «tanga», tal é o absurdo. E há mesmo professores, é justo dizê-lo, que algumas coisas a gente fica na dúvida se sabem mesmo. Por exemplo, uma das coisas que eu levo sempre para as escolas — a Conceição também leva fotografias — é o Tarrafal. Temos um painel que, aliás, foi feito para Peniche com os 32 assassinados. Até hoje ainda não encontrei um miúdo que dissesse que sabia o que era o campo de concentração do Tarrafal. E eu até costumo brincar: todos vocês sabem quem é o Ronaldo, quem é a Madonna, mas não sabem o nome de nenhuma destas pessoas que deu a vida pela liberdade. E isto é um problema.

Conceição Matos  Os jovens bebem as palavras. Querem ouvir. Aparecem muitos professores. Muitas vezes a gente não vai às escolas só para falar com os alunos. Os próprios professores aproveitam muitas coisas. Os jovens não lhes passa pela cabeça o que é que foi o fascismo e o que foi preciso lutar — prisões, torturas, mortos. Ficam muito abismados quando se fala destas coisas. E mesmo os professores, a maioria deles já nasceu depois do 25 de Abril.

Domingos Abrantes  De um modo geral, há adesão, mas a primeira reação dos jovens quando se fala do que era o fascismo é a surpresa. As prisões, as torturas… e que houve crianças que também foram presas, torturadas e mortas. A nossa grande batalha é os jovens perceberem — os jovens, os professores e os portugueses em geral — que a liberdade conquistada custou enormes sacrifícios. E que a liberdade é inseparável da resistência. Não é por acaso que o Museu de Peniche se chama Museu Nacional Resistência e Liberdade. Mas tem havido uma política, e essa sim oficial, no sentido de separar a resistência da conquista da liberdade. Basta ver as comemorações oficiais e a programação. Isso desapareceu como objetivo formativo. Mas se não houvesse aqui uma luta de 48 anos, das formas mais diversas, de trabalhadores, camponeses, intelectuais, jovens, etc., não se tinha preparado o terreno. Estamos a falar de dezenas de milhares de pessoas que foram presas. E muitas assassinadas. O problema é que, a maior parte das pessoas, sobre isso, sabe zero. E há um dever, já não é político, um dever moral de que as jovens gerações deviam ser educadas no sentido de que aqueles sacrifícios não podem ter sido em vão. As famílias também, mas a escola tem um papel decisivo em formar consciências democráticas.

E nós enfrentamos hoje um problema muito mais perigoso e já começámos a sentir que é ouvir dizer: «Isto está a precisar de um Salazar». As pessoas começam a posicionar-se não por aquilo que conquistámos, por aquilo que têm, mas pelas  dificuldades que têm. A gente fala das conquistas, mas eles começam a ter problemas com as rendas, os pais que não têm trabalho, as dificuldades, e isso marca cada vez mais o pensamento e as posições face à liberdade e ao próprio 25 de Abril. E acho que é um perigo real. O crescimento da extrema-direita no mundo, encontra milhões de pessoas sem horizontes. E quando há milhões de pessoas sem horizontes, há um pasto de cultura de gente suscetível de acreditar em milagres. Aliás, foi sempre assim.

Conceição Matos  É preciso mostrar aos jovens o que foi antes e depois do 25 de Abril. As conquistas que tivemos. E ajudar os jovens a perceber que o fascismo existiu e é preciso defender a liberdade conquistada com muitos sacrifícios.

Domingos Abrantes  E por muitas que sejam as dificuldades de hoje e de amanhã, enquanto houver a liberdade têm a possibilidade de inverter a situação.

Manuel Guerra — Apesar de todo este contexto, continuam, com grande esforço, a ir às escolas…

Conceição Matos  No meu caso pessoal, custa-me sempre muito falar do passado, mas enquanto eu puder, vou fazê-lo. Foi uma coisa que eu jurei a mim mesma. Não há nenhuma escola que me peça que eu não vá, porque acho que é importante, tão importante, explicar aos jovens o que é que foi o passado…

Domingos Abrantes  Nós vamos por dever, porque é dever testemunhar uma experiência que queremos que não se repita no nosso país. Eu já ouvi muitas vezes, da boca de professores, para os alunos, dizerem a importância que tem o testemunho na primeira pessoa. É um testemunho que tem um peso, não é o livro. Ora, isto coloca um problema, nós somos uma camada em vias de extinção. Isto é, vai chegar uma altura em que não haverá testemunhos vivos. A Conceição tem 87 anos, eu tenho 88 anos. Os horizontes de vida são... Passaram 50 anos. Isso significa que este trabalho não pode continuar a ser pensado na base dos testemunhos na primeira pessoa. Até pelas leis da vida.

Isto confere, de facto, uma maior responsabilidade à escola. A família também tem, ou devia ter, um grande papel, mas sejamos realistas. A escola é que será a grande fonte de influência. E o trabalho.  Os testemunhos ficam. Há que falar da polícia, das torturas, dos assassinatos.

Naturalmente, não é pouco o que cada professor pode fazer — nalguns casos é só por causa disso, da carolice dos professores, que há transmissão —, mas a batalha deve ser uma batalha comum da escola, do ensino, para que isto se transforme na formação democrática dos jovens, o que devia ser considerado como uma tarefa essencial para a defesa da liberdade.

Conceição Matos  Perder a liberdade é muito fácil. Mas ganhar a liberdade, conquistá-la, é muito difícil. Foram quarenta e oito anos de fascismo.

Versão resumida publicada na revista «Escola/Informação» n.º 308 | maio/junho 2024