Entre números e realidade
José Feliciano Costa (SG FENPROF), Correio da Manhã, 14 de abril de 2026
Descobriram-se dez mil professores “disponíveis” no Norte do país que, se se deslocassem para Lisboa, resolveriam o problema da falta de docentes. A questão é que essa disponibilidade não é visível — e o próprio Norte já enfrenta essa escassez, num fenómeno que se vai alastrando a todo o país.
Mesmo que existissem, não resolveriam o essencial. Cerca de 20 mil docentes abandonaram a carreira na última década e meia, não por falta de vocação, mas por uma profissão progressivamente desvalorizada e financeiramente insustentável.
Os incentivos continuam residuais: não acompanham rendas nem custos de vida, funcionando mais como sinal político do que como resposta efetiva.
Numa profissão com taxas de desistência entre 28% e 35% dos inscritos nos cursos de formação inicial e mais de metade dos jovens professores a admitir abandonar a carreira, o problema não é de geografia, mas de atratividade e condições de trabalho.
A insistência em soluções aritméticas para uma crise estrutural e previsível — como se a simples deslocação de profissionais ou a sua redistribuição geográfica pudesse compensar anos de desvalorização da carreira — constitui, no mínimo, um exercício de negação da realidade.