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Ensaio sobre a cegueira
José Saramago | Ilustrações de Pablo Auladell | Porto Editora
Lígia Calapez | Jornalista
A assinalar o seu 30º aniversário, Ensaio sobre a cegueira é celebrado com uma edição especial, com belas e significativas ilustrações de Pablo Auladell.
Um momento particularmente oportuno para esta reedição. Quando – face às realidades que hoje vivemos - a terrível história fantasiada por Saramago parece interpelar-nos diretamente.
Ensaio sobre a cegueira poderá, talvez, ser considerada uma distopia. Um alerta para a degradação dos mínimos de civilização, quando um poder repressivo se impõe, baseado no medo. No caso o medo gerado pela “treva branca” que foi deixando cegos todos os habitantes de uma cidade.
Da parte do poder, a aposta é repressiva, pondo mesmo em causa os mais básicos princípios de humanidade. Em sequência, acabam por se expressar livremente os mais sórdidos instintos, em grupo e individualmente.
Mas há também a expressão da empatia, do humanismo e até do humor, nas personagens e nas situações. A maravilha das coisas banais, como um copo de água quando já não há água. E a lucidez: “se não nos organizarmos, é o medo e a fome que mandam”. E há, também, a complexidade e a evolução pessoal face ao sofrimento. O melhor e o pior dos comportamentos humanos, que mais se revela em situações extremas. “O mundo está todo aqui dentro”, diz, justamente, uma das personagens.
No fim, fica a interrogação: “Porque foi que cegámos?”. E uma resposta, que é também um alerta: “Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 313 | janeiro/fevereiro 2026