“É na participação em projetos que eles constroem o próprio conhecimento”
Lígia Calapez e Sofia Vilarigues
“As preocupações azuis na comunicação em ciência”, é o projeto que nos levou à Anselmo Andrade, em Almada, envolvendo alunos do 12º ano e, nomeadamente, a professora Élia Martins, que, neste quadro, participaram num congresso científico escolar, onde os estudantes apresentaram diversas comunicações. Mas não surge como uma iniciativa isolada. Antes se insere num trabalho sistemático que vem sendo desenvolvido ao longo dos anos e se desdobra em múltiplas atividades.
Uma preocupação central, é sempre a participação
“Às vezes é preciso saber agarrá-los, às vezes não conseguimos porque não passamos tempo suficiente com eles, não os conhecemos”. Uma frase de Élia Martins, à laia de conclusão informal que, de algum modo, reflete o trabalho, o entusiasmo, o esforço, subjacente aos projetos que estiveram no fulcro da nossa entrevista.
“Trabalhamos com os nossos alunos aqui na escola, desde o 5º ano, e todos eles têm que fazer apresentações”, começou por referir Élia Martins. A capacidade de comunicação é uma preocupação permanente e transversal - “independentemente de ser um projeto ou de ser uma aula de ciências, é uma prática”. Que se cruza com uma outra, que é a capacidade de “transmitir aos colegas de outros níveis de ensino”.
Nesta iniciativa, que integrou a semana cultural, organizada anualmente pela escola, teve particular destaque o estudo das pradarias marinhas e a sua importância enquanto ecossistemas vitais para a saúde do oceano.
A Anselmo Andrade é uma Escola Azul há 9 anos. Já anteriormente tinham projetos como o Kit do Mar(1) e com o IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Entretanto, concorreram à rede Europeia de Escolas Azuis - European Blue Schools, com o projeto das pradarias marinhas. “Soubemos em julho que tínhamos ganho a bolsa”. Começou então o necessário processo de estruturação. “Escolhemos qual era a turma adequada para implementar o projeto e, depois, fomos falar com os alunos para fazer a sensibilização. Eu e a professora Isabel Marques, que é a coordenadora do projeto”.
O grande objetivo era “trabalharmos a importância da vegetação subaquática”. Porque “durante muito tempo acreditou-se que era muito importante a Amazónia, e continua a ser, mas a maior parte do nosso oxigénio vem do oceano e das pradarias marinhas”. Daí “a importância de as preservarmos”, salientou.
A partir da sensibilização da turma, os alunos começaram a procurar desenvolver subprojectos que dessem resposta ao tema global, “para cada grupo trabalhar uma área diferente. Relacionando com a cidadania e desenvolvimento”. Realizou-se, entretanto, uma visita preparatória ao Oceanário, para obter mais dados, mais informação, com um workshop de interpretação de dados.
Os alunos implementaram, assim, uma série de projetos, dos quais fizeram uma comunicação. Organizou-se então o congresso, num quadro de “comunicação à comunidade escolar”, envolvendo alunos da escola, de vários anos. E incluindo também, como convidados, nomeadamente professores franceses (resultante de uma parceria com a Associação Almada Mundo).
O congresso englobou, basicamente, uma comunicação sobre a importância da cidadania e da participação cívica, a comunicação de um investigador, Ricardo Estevães, antigo aluno da escola, e as comunicações dos diferentes grupos de trabalho.
Para finalizar o projeto “fomos trabalhar nas pradarias marinhas. Fomos um dia inteiro para o estuário do Sado. De manhã foi a parte lúdica, fomos ver golfinhos, numa traineira. De tarde fomos com o ICNF fazer uma ação para vermos no - local com as botas de borracha, com isso tudo - as pradarias marinhas”.
Todos estes projetos – quer no quadro da Escola Azul, o Eco-Escolas, o Clube Ciência Viva, o Clube Europeu – se desenvolvem em articulação com os currículos. “Não é uma coisa à parte”. E, uma preocupação central, é sempre a participação. “Tendo em conta o futuro dos alunos como cidadãos, que vão decidir se vamos ter uma central nuclear ou não, por exemplo”. Com base num conhecimento científico - em que não sabemos tudo, temos de pesquisar. Partir do que sabemos, o que é que precisamos de saber mais, para tomar uma decisão consciente.
“É na participação em projetos que eles constroem o próprio conhecimento. Vão à procura. Recorrem à inteligência artificial, vão ao ChatGPT, perguntam, têm uma ideia do que é que podem relacionar. E, depois, vamos à procura das fontes científicas, vamos contextualizar o nosso trabalho”.
Assim, os projetos vão evoluindo, “surgem como uma ideia e, depois, quando se começam a implementar, vamos vendo as ideias que os próprios agentes que estão a trabalhar vão colocando”.
Aprender com a prática
O que é o carbono azul? Foi esta uma das aprendizagens da Margarida e do Rafael, alunos do 12º ano da escola, ao criarem as apresentações do congresso de comunicação em ciência.
“Carbono azul é o termo utilizado para designar o carbono capturado e armazenado pelos ecossistemas marinhos e costeiros e refere-se à quantidade de dióxido de carbono removido da atmosfera por estes ecossistemas e promove a redução do impacto dos gases de efeito de estufa (GEE) na atmosfera.” Lê-se na presentação grupo da Margarida.
Ambos descobriram a importância das pradarias marinhas, com as quais os subtemas das apresentações se relacionavam.
Pradarias marinhas que são “ecossistemas subaquáticos formados por plantas aquáticas (ervas marinhas) que vivem em zonas costeiras, lagoas, rias e estuários. São vitais para a saúde dos oceanos, funcionando como berçários para muitas espécies, protegendo as zonas costeiras e combatendo as alterações climáticas, uma vez que sequestram grandes quantidades de dióxido de carbono.” Diz-se na presentação grupo do Rafael.
As apresentações basearam-se em métodos como um questionário. “No nosso questionário nós fizemos várias perguntas de escolha múltipla e a última era de resposta aberta”, diz-nos o Rafael, cujo grupo tinha o tema “Carbono Azul, Democracia e Instituições Políticas”.
Desse questionário chegaram a uma conclusão: “As respostas destacam a importância da participação ativa das comunidades locais, especialmente pescadores, na gestão das pradarias marinhas. A criação de conselhos ou estruturas de gestão partilhada surge como medida central, promovendo transparência, inclusão e partilha de benefícios, reduzindo conflitos e garantindo justiça democrática”.
O grupo da Margarida, cujo tema era “Acidentes Rodoviários: Cidadania, Segurança e o Poder do Carbono Azul”, também chegou às suas conclusões: “A segurança rodoviária e a proteção ambiental estão interligadas. Optar por uma condução segura e preferir transportes públicos ou até andar de bicicleta, reduz o número de emissões de CO2 e protege os ecossistemas marinhos e costeiros”. E fez mesmo descobertas relevantes, como a da relação da velocidade e do desgaste dos pneus, com a produção de micropartículas de plástico, que com a chuva acabam por ir parar ao oceano.
Sobre os cuidados a ter na comunicação em ciência, Margarida destaca que se usa “linguagem científica, mas que tem que ser adaptada para toda a gente conseguir perceber”. “Porque se nós não explicamos o que é o carbono azul, depois temos de falar de pradarias marinhas e carbono azul e as pessoas não sabem o que é que isso quer dizer”, acrescenta.
Este projeto trouxe ainda aprendizagens ao nível do desenvolvimento pessoal. Margarida salienta que “eu considero-me uma pessoa introvertida, mas acho que, quando tenho de fazer estes projetos, consigo libertar-me um bocadinho mais e expor-me um bocadinho mais. Tem que ser e então isto permite-me ser mais polivalente, digamos assim”.
Consideram este tipo de projetos “mais interessante que aulas expositivas”. E “permitem, também, comunicações interpessoais”, conclui o Rafael.
(1) https://www.dgpm.mm.gov.pt/kit-do-mar