Voz a quem entra
Sara Covas | Dirigente do SPGL
À precariedade que permanece no nosso sector, junta-se as dificuldades no acesso à profissionalização e uma formação cada vez mais afastada da realidade e dos desafios no nosso ensino. São também essas as principais preocupações do Pedro Ferreira, da área de Biologia e Geologia, colocado na Escola Secundária de Amora.
SC - O que gostavas de ver abordado/trabalhado num mestrado em ensino?
PF - Penso haver uma questão nos Mestrados de Ensino que não tem sido discutida com o valor material a que corresponde na prática docente: a falta de doutorados em Ensino em Portugal. E que devia ser discutido de forma aberta nas Instituições com Mestrado de Ensino.
Temos tido uma série de Governos da República que, no que toca à formação de professores, não tiveram capital político, competência e/ou vontade de pensar a longo prazo (e, noutras áreas de governação, em muitas outras coisas).
São aumentados os números de vagas nos Mestrados de Ensino, por pressão eleitoral, dada a urgência que é vivida no setor, sem que isso corresponda a um incentivo ao Doutoramento nas áreas da Educação nos anos anteriores. No que é que isto resulta? Numa desigualdade científica astronómica entre colegas durante o Estágio profissionalizante. É muito diferente ser orientado por alguém que faz do pensamento teórico-prático educativo vida, em comparação com alguém cujo objeto de estudo é o granito nodular da Serra da Freita. Embora que por vezes pareçam, alunos não são rochas.
Senti isto na pele na minha formação. E não digo isto por inveja, pois fui orientado por pessoas com a mais alta formação e exigência no que ao ensino toca, e, sem dúvida aprendi muito mais por isso. Mas vi bem a diferença na qualidade científica dos conteúdos pedagógicos criados em comparação com outros núcleos de estágio, e, mais importante numa perspetiva de carreira, vi as diferenças nas avaliações: a exigência era muito superior e, por isso, para o mesmo esforço, correspondiam notas inferiores.
Isto terá, obviamente, consequências na educação pública portuguesa em duas ordens diferentes: cria professores menos pedagogicamente interessantes e beneficia na carreira esses exatos professores menos interessantes, por nota inicial mais alta (por comparação relativa).
SC - Quais são os maiores desafios para quem entra no ensino hoje?
PF - Parece-me a mim que os maiores desafios é o navegar pelo mar burocrático do trabalhador do Estado, e o confronto com a indisciplina.
Acerca do primeiro problema não ouso escrever, pois é um problema de tal forma complexo e intrincado que parece-me ser de solução a longo prazo, e que a ser resolvido, será com uma participação alargada, refletida e ativa de todos os agentes envolvidos; e não com decisões top-down meramente ideológicas (não que não o devam ser), como esta aglutinação na Agência.
Acerca do segundo, há muito mais que poderia escrever, mas gostava de responder, perguntando:
Que quietude, necessária ao ensino-aprendizagem, posso pedir a um menino de 14 anos que saiu de casa às 6h30 da manhã para ter aulas às 8h00, interrompendo os seus ciclos circadianos naturais de sono?
Que estrutura socio-emocional, necessária ao ensino-aprendizagem, posso exigir à menina cuja mãe entra às 6h00 a fazer limpezas nos escritórios dos senhores das avenidas, e que volta a entrar noutros mais tarde, voltando a casa apenas para jantar?
Os problemas de indisciplina estão a aumentar, porque a nossa estrutura socioeconómica cada vez mais expulsa o indivíduo da sua comunidade, vendendo a força do seu trabalho, sem um retorno de capital social que sirva a educação; e quando a educação perde, perdemos todos.
Texto original publicado no Escola/Informação n.º 314 | março/abril 2026