Artigo:a voz a quem entra | Beatriz Bastos

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a voz a quem entra

Beatriz Bastos e Sara Covas

As renovadas forças com que saímos deste Congresso, prendem-se também com a presença da juventude entre os seus delegados. Beatriz Bastos fez a sua estreia neste Congresso. Tem 21 anos e veio de Gaia para dar aulas de Português na Casa Pia.

Sara Covas (SC) - É o teu 1.º Congresso. E não temos mais momentos, para além deste, em que se encontrem professores de todo o país a discutirem o futuro da escola pública. O que tens sentido nestes dias?

Beatriz Bastos (BB) - Se, por um lado, estava nervosa por ser, não só, o meu primeiro congresso, mas também pelo meu papel enquanto delegada sindical. Por outro lado, foi uma experiência enriquecedora, por observar e sentir a união dos professores que têm como causa comum a melhoria das suas condições de trabalho. Essa é, também, uma das razões principais pelo meu ingresso no sindicato: a demonstração constante da luta em prol dos direitos.

SC - A tua situação é particularmente precária. Para além de estares a contrato, a obrigação de fazer um mestrado cujas vagas são escassas, continua a tornar a nossa profissão pouco atrativa para os jovens.

BB - Efetivamente, acaba por se tornar um desafio ingressar nesta profissão. Para além do mencionado, ainda podemos acrescentar, por exemplo, as horas extraordinárias, cada vez mais frequentes. O desgaste mental, próprio da profissão, bem como as preocupações em relação ao futuro, pela instabilidade de uma carreira a contrato, constroem um cenário generalizado de desmotivação.

Torna-se, por estes motivos, cada vez mais urgente a melhoria das condições de trabalho e de progressão da carreira, bem como, do modelo de acesso à profissão.

SC - O ensino profissional tem as suas particularidades, e muitas vezes é visto erradamente como uma alternativa curricular mais fácil, esquecendo a carga horária que estes alunos carregam consigo. Como é que tem sido a tua experiência?

BB - É um erro comum presumir que o ensino profissional representa uma via mais fácil ou menos “exigente”. Esta perceção ignora, por completo, as particularidades e as exigências inerentes a este tipo de ensino.
Posso dizer, pela minha experiência não só como professora do ensino profissional, mas também como ex-aluna do ensino profissional, que, para além da carga horária, a diversidade de disciplinas técnicas e práticas exige não só tempo, mas também um elevado nível de responsabilidade e capacidade de organização. Para além disto, o estágio profissional que estes alunos escolhem representa, no fundo, uma espécie de amostra do “mundo adulto”, onde têm de lidar com as responsabilidades, horários rigorosos e exigências profissionais, mais cedo que os restantes colegas. É nesta fase que muitos deles têm o primeiro contacto direto com o mercado de trabalho, pelo que é necessário desenvolver competências como a autonomia e a proatividade.

SC - E onde muitas vezes são terrivelmente explorados, não só com horários, mas também com tarefas que vão para além do que é a sua função e está acordado com a escola.

BB - Sim. Muitas vezes, está longe de ser uma experiência de aprendizagem. 

Para muitos, este contacto inicial representa, também, um choque: rotinas rígidas a enfrentar, situações de clara exploração.

Há casos em que os jovens são sobrecarregados com funções que ultrapassam, em muito, o que foi acordado com a escola, executando tarefas que não lhes competem ou cumprindo horários abusivos, sem qualquer tipo de compensação. Isto, não só destrói o verdadeiro objetivo do estágio profissional, como também desmotiva os alunos que ingressam neste tipo de ensino.